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«Fui a uma aldeia, pendurada de uns rochedos de Barroso. Bragadas era o seu nome. Chamavam-me ali as trutas do rio Beça, as maiores trutas dos córregos riquíssimos de Portugal.
Distanciei-me duas léguas de casa, e fui surpreendido pela noite, debruçado por sobre uma fraga, com o anzol numa levada, onde vi uma truta velha, de cabelos brancos, como lá dizem.
Desta macróbia se dizia que tinha impunemente engolido anzóis! O peixe era um Mitrídates da sua classe.
Assustado da noite, e transviado do caminho, fui dar àquela aldeia, e perguntei a um pastor se lá havia padre. Casa de padre é sempre albergaria certa de forasteiros, mesa farta, e cama limpa. Não havia padre em Bragadas.
[...]
-Vossemecê parece estar a gostar das figurinhas do portão? – disse o senhor Barroso.
- Estava a admirar.
- As figuras são os doze apóstolos e os anjos. Aquilo está bem feito de uma vez, heim?
- Nunca vi coisa melhor? mas…
Sustive-me. Eu ia perguntar ao hospedeiro dono daquele magnífico portal, como era que a fachada do edifício escondia uns quase pardieiros, uma cozinha térrea, e uns sobrados com umas janelas de pedra bruta, e portadas de madeira nem sequer desbastada pelo cepilho!»
(In Noites de Lamego)

O infortúnio e a tendência aventurosa de Camilo Castelo Branco são responsáveis pelos mitos que se desenvolveram à sua volta. O escritor é um dos principais responsáveis (senão o primeiro) por essa aura, não só perante o carácter heterogéneo da sua obra (desde o romance ao ensaio e às memórias), mas também pelo mistério que sempre alimentou sobre a sua própria vida, a começar nas origens, e a continuar no seu espírito aventuroso… Camilo Castelo Branco – Memórias Fotobiográficas (1825-1890) de José Viale Moutinho conduz-nos com mestria no percurso multifacetado de um nossos maiores escritores, mas, mais do que isso, leva-nos ao Portugal profundo do século XIX, que o autor de Amor de Perdição representa e descreve. Figura muitas vezes desconhecida, apesar do sucesso dos seus livros e da paixão que suscita ainda hoje em tantos leitores, Camilo protagonizou uma vida atribulada de romântico que teve a lucidez de se libertar dos constrangimentos de escola que esterilizaram outras promessas. Homem cultíssimo, estudioso exaustivo da história e da sociedade, romancista fecundo — Camilo soube ultrapassar as poderosas baias românticas, indo ao encontro das tendências modernas do seu tempo. A partir de uma personalidade muito forte, o retrato que encontramos de Camilo é a representação de alguém cujo talento resulta de um cadinho onde se misturam ingredientes quase explosivos da sociedade antiga e da sociedade contemporânea, que o escritor procura contraditoriamente compreender.
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Pensamento da semana


“O dinheiro! Vós não sabeis o que são essas oito letras, que só elas valem as vinte e cinco do alfabeto!
O dinheiro, amigos! Eu nunca me cansarei de vos lembrar esta palavra, três silabas distinctas que fazem o único deus verdadeiro deste paganismo ignominioso em que medram os vícios da sociedade.”
(In A filha do arcediago)

Camilo Castelo Branco vendeu por duas vezes a sua biblioteca particular. Porém, em resultado de sucessivas aquisições, foi possível reunir na Casa de S. Miguel de Seide 856 volumes, em 708 obras, muitos deles enriquecidos com preciosas notas a lápis do próprio punho de Camilo, as quais revelam não só o apurado sentido estético e literário do romancista como também o afiado “bisturi” camiliano.
O livro de Álvaro Neves disponibilizado on-line pela University of Toronto (Canada) permite ao leitor conhecer um vasto conjunto de  notas deixadas por Camilo nas margens dos muitos livros que leu.


NEVES, Álvaro – Camillo Castelo Branco: Notas á margem em varios livros da sua biblioteca. Lisboa: Parceria Antonio Maria Pereira, 1916.

Descarregar ou consultar o livro: http://www.archive.org/details/notasmargememv00castuoft


O dia 17 de Junho de 1899 marcou o nascimento do Cinema Águia d’Ouro. Edificado na Praça da Batalha, no Porto, a sua fachada oitocentista marcou, durante anos, o cinema portuense.

Foi circo, recebeu teatro e, em 1907, assistiu à estreia do cinematógrafo de Thomas Edison. A partir de 1920, a rodagem de filmes começou a ser feita de forma regular.

Viveu uma época áurea e no local, onde anteriormente funcionou um botequim, realizaram-se tertúlias com a presença de Camilo Castelo Branco, Delfim Maia, entre outros.

No entanto, na década de 80 entrou em declínio e acabou progressivamente dotado ao abandono e à degradação, o que ditou o seu fim no dia 31 de Dezembro de 1989.

Depois de negócios frustrados para a revitalização do espaço, actualmente já estão a ser dados passos para a sua recuperação. A criação de um hotel “low cost” está já na calha.

Jornal Notícias


«Camilo é o nosso grande romancista. E Humorista. Romântico, dramático, trágico, satírico, de ir às lágrimas e de chorar de rir. A língua portuguesa rejubila com ele. Desenha personagens a fio de prata, iluminando a prosa. Raúl Ruiz escolheu “Misterios de Lisboa” para filmar e quer continuar com “O Livro Negro do Padre Diniz”, obra romântica fantástica com um pouco de “O Monte dos Vendavais”. Manoel de Oliveira transformou Camilo em teatro radiofónico, o que é pouco para o génio absoluto do autor de “A Brasileira de Prazins”. Talvez o Chileno entenda o talento extraordinário de ficcionista e historiador, que os portugueses ignoram por não ser “moderno”, nem “francês”, nem “cosmopolita”. Por isso é o melhor de nós.»
Francisco José Viegas
In Correio da Manhã, 29 de Dezembro de 2009


“Nasci em Lisboa e fui baptizado na Igreja dos Mártires. Está resolvida a questão perante a posteridade no litígio que há-de correr entre Samardã e Lisboa.”
(In Boémia do Espírito)

OUT OF AFRICA (título original)
ENTRE DOIS AMORES (título no Brasil)
ÁFRICA MINHA (título em Portugal)

Quantas vezes já peguei no DVD “AFRICA MINHA” e obriguei o leitor a mostrá-lo no ecrã lá de casa ? E é um momento em que recordo o grande espanto de sentimentos que foi, nos meus olhos e na minha alma, a sua primeira exibição – estou agora a referir-me ao cinema – na pantalha do S. Jorge.

No fundo estou a saudar uma quase intimidade com o livro de Karen Blixen e com o filme do realizador Sydney Pollack.

Porquê intimidade ?

Porque também já caminhei entre os rugidos do leão da anhara ?

Porque o meu jeep de outros tempos também voou diante de uma manada de elefantes ?

Porque as zebras lá do Quénia vestem o mesmo casaco riscado de outras que conheci nas terras da Lunda ?

Porque, também na região do Bembe, nasce o café num corrupio de flores brancas – até que o campo se torna vermelho com o amadurecer das bagas ?

Porque os Kikuyu desenham sorrisos tão leves como os quicongos ou os bailundos ?

Porquê intimidade ?

E enquanto tanto me pergunto, sigo na avioneta do filme (apenas essa) os caminhos do céu, de florestas e savanas. E ainda está nos meus ouvidos todo o eco das marimbas apesar das sinfonias de Mozart, as que se ouviam na casa de Karen Blixen.
Carlos Brandão Lucas


Para uma leitora, recente, da obra camiliana, que inicia a sua paixão por Camilo nos encontros das Noites de Insónia, confesso que foi com imenso prazer que li a obra proposta para o 1º encontro deste ano, na quarta-feira passada (dia 20), na Casa de Camilo: A Queda dum Anjo.
Este livro já me viera parar às mãos noutras épocas, em que, só pelo título, eu desconfiara do conteúdo bafiento e, por isso, recusara tal leitura. Puro engano meu, nessa época eu desconhecia a delícia, o sabor de um manjar dos deuses, traduzido na mestria da linguagem escrita de Camilo Castelo Branco.
Hoje, posso considerar-me uma apaixonada por Camilo, como a Amélia, a Luísa, a Joaquina, e todas as Marias do Adro, que com ele trocaram os primeiros e virginais amores.
E estes meus amores por Camilo nascem da grande admiração pelo seu entrelaçado de frases, que muito oportunamente surgem pelo conhecimento da alma humana, de quem está habituado a beber da singeleza do ser, que nos leva a coabitar com memórias mais longínquas, de eras passadas, mas intuindo sempre que elas fazem parte do mesmo teatro da vida, sempre actual, e que assim perdurarão.
Por isso, Camilo é capaz de fazer rir e chorar, com a mesma simplicidade de quem não faz esforço para pegar na “pena”, deixando sempre brotar as emoções vividas pelos personagens, tornando-as vivas, presentes, histórias reais que não se encontram em obras de ficção, pois nelas há sempre verosimilhança.
E quando elas tocam a raia do extraordinário, do pitoresco, da caricatura, ainda mais apreciadas se tornam, pois fazem renascer ou acordar em nós sensações adormecidas, fantasias secretas, imaginações do estado de sermos humanos. E será, talvez, esta a grande partilha de Camilo nas poucas obras que já pude ler, a mostra do seu mundo pessoal através da vivência das suas personagens, pois que a cortina é tão ténue que sempre se adivinha a sua imagem ao espelho, rindo-se da sua própria imagem, observando-se tão atentamente quanto a todos os que o rodeiam…
A Queda dum Anjo demonstra bem como todos somos anjos caídos, tão acérrimos defensores de valores elevados e de alta moral, que mal o vento mude e outro tipo de sorte nos bata à porta, aí estamos nós, tipo catavento, a girar para o lado que mais nos agracie. Assim é feito o ser humano, de contradições e incoerências.
A demonstrá-lo temos o demónio parlamentar quando descobre um Anjo, Calisto Elói, rústico-erudito transmontano, perseguidor de leis antigas e de virtudes capitais que, na Câmara de Lisboa faz sucesso com a sua eloquente oratória, contrapondo o palavrório do Doutor Libório, que não falando português de gente, mas idiomas que por muito espremidos azedam a língua, não passam de farfalhices de tolos.
O apelo à “Ordem para a Língua Portuguesa” passa assim a ser urgente, já que tais locuções repolhudas podem ser consideradas parlamentares – assim raspa aos ouvidos da Câmara a linguagem seca de Calisto, quando estes se deleitam com a retórica florida do Deputado do Porto.» (Citações retiradas do livro)
E nós, simples leitores, apaixonados pela envolvência do cenário, já nem damos pela nossa voz (e braço) que se eleva ao ritmo da do nobre Morgado, proclamando, também, em alta voz: Senhor Presidente! … (e depois, surgem os risos ou as gargalhadas perante tais excessos de linguagem, ou caricaturas extremosas de figuras e conceitos, satirizando governos e regimentos).
O carismático Calisto Elói acaba por perder as asas quando entra no “Sistema governamental”, com todos os agraciamentos a que teve direito, porque o “amor” tem custas penas e, há que ganhar o sustento com o seu próprio suor.
E muito mais haveria para explorar sobre esta “Queda dum Anjo” e o espíritolúcido com que Camilo Castelo Branco a projectou num espaço e num tempo que não se distanciam do actual.
Mas foi ela brilhantemente esmiuçada pelo actual coordenador e orientador das nossas Noites de Insónia, o Professor Sérgio, que através da sua clara visão e poder de comunicação, deu ele, também, expressão viva à obra, levando-nos a compará-la com outras da literatura portuguesa ou internacional, mesmo da ficção cinematográfica, nos pontos de convergência, no estilo linguístico, na caracterização de personagens e de atitudes similares, abrindo o leque das perspectivas com que se pode encarar uma obra literária, fazendo-nos apreciar, cada vez mais, as obras camilianas e entusiasmando novos leitores.»
Lucília Ramos

(Sala de visitas da Casa de Camilo - Foto de Fernando Guerra)

Estreia no próximo Sábado, dia 23 de Janeiro, às 19h00, na RTP2, o Programa “Casas com História”, produzido pela Mínima Ideia, o qual proporcionará uma visita por 13 residências de personalidades da vida e da cultura portuguesas que, segundo a Direcção de Programas da RTP, merecem ser conhecidas pelo grande público.
Falar-se-á de figuras como Camilo Castelo Branco ou Teixeira de Pascoaes ou José Régio através dos espaços onde viveram e criaram, dos seus objectos, das suas rotinas domésticas. É a memória de escritores, pintores, escultores, políticos, médicos, empresários e mecenas das artes em Portugal fixada naquelas que foram as suas casas, museus muito especiais, lugares de valor patrimonial inestimável que revelam ricos e exclusivos acervos, e que contam histórias que fizeram a história do país.
A ordem de exibição dos documentários é a seguinte:
1 - Casa de Camilo Castelo Branco - 23 de Janeiro
2 –  Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio – 30 de Janeiro 
3 – Casa-Museu Egas Moniz – 6 de Fevereiro
4 – Casa-Museu José Régio – 13 de Fevereiro
5 – Casa-Museu Teixeira Lopes – 20 de Fevereiro
6 – Casa-Estúdio Carlos Relvas – 27 de Fevereiro
7 – Casa dos Patudos – 6 de Março
8 – Casa-Museu Fundação Medeiros e Almeida – 13 de Março 
9 – Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves – 20 de Março
10 – Casa-Museu Guerra Junqueiro – 27 de Março
11 – Casa-Museu Anselmo Braamcamp Freire  – 3 de Abril
12 – Casa Teixeira de Pascoaes – 10 de Abril
13 – Casa-Museu Almeida Moreira – 17 de Abril
(Os documentários serão emitidos aos Sábados, pelas 19h00, na RTP2)

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