Clint Eastwood volta, aos 79 anos e depois de uma paragem de quatro sobre o Billion Dollar Baby, a realizar, produzir e interpretar um filme que, do meu ponto de vista pessoal, é uma das suas melhores obras. A coadjuvá-lo tem dois dos seus filhos Scot e Kyle. A história é duma imensa simplicidade e talvez resida aí a sua grande força. Walt Kovalsky é um veterano da guerra da Coreia, de origem polaca, aposentado da Ford, que perdeu recentemente a mulher. Vive sozinho com a sua cadela Daisy – uma Labrador Retriever -, tem mau feitio e os filhos praticamente ignoram-no, porque desejam interná-lo num lar para idosos.
Duro e de difícil relacionamento, vive num bairro onde antes havia uma classe média de trabalhadores brancos, mas que agora é dominado por asiáticos pobres e gangues violentos.
É neste contexto que Walt vai aprender aquilo que a vida, antes, parece não lhe ter ensinado: que todos somos seres humanos que precisamos uns dos outros, independentemente da raça, do credo ou da forma de vida.
É também um filme sobre a solidão, a honra, a fidelidade aos valores em que acreditamos e às marcas que a guerra deixa naqueles que para ela vão. E é, não haja qualquer dúvida, um hino ao amor do próximo! Helena Sacadura Cabral Lisboa, 24 de Setembro de 2009
Camilo Castelo Branco na releitura intertextual de autores portugueses contemporâneos foi o título da comunicação apresentada pelo Prof. Dr. José Cândido de Oliveira Martins no 8.º Congresso Internacional da Associação Alemã de Lusitanistas – Deutscher Lusitanistenta, na Universidade de Munique (Luwig Maximilians Universität, München), de 3 a 5 de Setembro 2009.
O conteúdo dessa intervenção de síntese teve estas ideias principais: a vida e a obra de Camilo Castelo Branco constituíram-se como tema recorrente em vários autores portugueses contemporâneos: Aquilino Ribeiro, Teixeira de Pascoaes, Agustina Bessa-Luís, Luiz Francisco Rebelo, Mário Cláudio, entre outros. Em vários géneros literários (biografia, romance ou teatro), diversos escritores revisitam a figura e a criação camilianas. Assim, é muito interessante reflectir sobre os sentidos e as orientações desse diálogo intertextual com um autor canónico do séc. XIX, cuja recepção tem sido objecto de alguns “clichés” bastante redutores.
Independentemente de existir uma tendência marcada ou uma genealogia de escritores camilianos ao longo do séc. XX, essa recorrência temática parece comprovar a mitificação de que a vida e a obra de Camilo foram alvo, numa espécie de culto feito de admiração e de homenagem; mas também de um certo diálogo tenso e de distanciamento crítico. No cômputo geral, nesses e noutros autores contemporâneos sobressai uma escrita eminentemente intertextual, que reinterpreta Camilo e a sua obra, propondo várias leituras interpretativas. Essa continuada recepção é uma das formas de sublinhar o lugar central de Camilo no cânone da literatura portuguesa.
O realizador chileno Raoul Ruiz inicia em Novembro a rodagem do filme Mistérios de Lisboa, a partir da obra homónima de Camilo Castelo Branco, anunciou recentemente o produtor Paulo Branco.
O elenco será internacional e integrará nomes como Rogério Samora, Filipe Duarte, Maria João Bastos, Adriano Luz, Laetitia Casta, Melvil Poupaud, Ivo Canelas, São José Correia, Marco d’ Almeida, Ana Bustorffe Rui Morrison. De acordo com a produtora Clap Filmes, está ainda em negociações a participação da actriz francesa Marion Cotillard, premiada com um Óscar por “La vie en rose” e que está actuamente em cartaz com “Inimigos Públicos.
O filme será rodado sobretudo em Lisboa, mas estão previstas gravações também no Brasil e em França. A produção prolongar-se-á até Setembro de 2010, já que Raoul Ruiz irá rodar não só uma longa metragem como também uma mini-série televisiva a partir da mesma obra de Camilo Castelo Branco.
O argumento é de Carlos Saboga, autor que assinou os argumentos de Jaime, O Milagre Segundo Salomé, Adeus Proncesa, O lugar do morto ou Aqui d’el Rei.
Esta não é a primeira vez que Raoul Ruiz escolhe Portugal para filmar, tendo rodado filmes como A ilha do tesouro (1985) e Fado mayeur et mineur (1994). Ruiz e Paulo Branco trabalharam já em várias produções, como Klint (2006), Aquele dia (2003), Combate de amor em sonho (2000), O Tempo Reencontrado (1999) e Genealogias de um crime (1997). InDiário do Minho, 30.08.2009
Um amor de perdição, do realizador Mário Barroso, é o candidato que Portugal propõe para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, segundo anunciou a produtora Clap Filmes.
O Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) propõe todos os anos junto da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos um candidato ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. A escolha é feita considerando todos os filmes estreados em Portugal entre Outubro do ano transacto e Setembro do ano seguinte.
Na fase de pré-seleccção, todos os países interessados apresentam uma candidatura, escolhendo depois a Academia os cinco candidatos ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro a partir do conjunto total de filmes apresentados.
Esta é a segunda vez que o ICA pré-candidata um filme do realizador Mário Barroso – em 2004, sucedeu o mesmo com O Milagre Segundo Salomé. Em Um Amor de Perdição, o cineasta adaptou de uma forma livre o romance homónimo de Camilo Castelo Branco , centrando o drama numa relação amorosa adolescente contemporânea.
A banda sonora é da autoria de Bernardo Sasseti, destacando-se no elenco de artistas Tomás Alves, Catarina Walleinstein, Virgilio Castelo, Ana Moreira, Ana Padrão e Rui Morrisson.
VASCO Pulido Valente declarou [Público, 06 de Setembro de 2009] que leu toda a obra de Camilo Castelo Branco porque o desafiaram a escrever um guião para cinema a partir de “O Esqueleto” e isso lhe trouxe vários embaraços. Por coincidência, eu própria passei a última semana a ler Camilo e percebo o Vasco quando fala da impossibilidade da coisa, das palavras que não vêm nos melhores dicionários e dos adjectivos que não se podem fotografar. Para lá do trágico-romântico “Amor de Perdição” (já filmado), é praticamente impossível representar sem estereótipos fatais a exuberância descritiva e a eloquência narrativa de Camilo.
Reli “A Queda dum Anjo” e leio agora “Eusébio Macário” com o gozo partilhado dos camilianos. Deliro com a sua gramática e com a maravilha dos seus parágrafos compostos de adjectivos, preposições, conjunções, interjeições e verbos conjugados de formas mais ou menos improváveis. Esfervilhar, tosquenejar, escorvar ou curvetear são apenas alguns exemplos, mas há muitos mais. Gosto da precisão com que Camilo descreve lugares, pessoas, relações e linhagens: “Uma fidalga magra, com perfil de santa e um sorriso bom para a morte e para o marido” é muito bom. Acho que vou fazer como o Vasco e ler a obra toda de uma ponta à outra. Laurinda Alves Jornalista http://laurindaalves.blogs.sapo.pt
Recebi um pedido — de resto, vago — para escrever um guião (de cinema) sobre um romance de Camilo (no caso, O Esqueleto). Resolvi ler a obra toda — uma apreciável empreitada. Não me vou expandir em considerações literárias, para que não tenho competência. Embora não inteiramente analfabeto, três coisas me fizeram impressão. Primeira, a quantidade de palavras, que não conhecia e que fui obrigado a procurar em dicionários (os melhores do mercado), em que elas, para minha surpresa, não constavam. Segunda, as dificuldades da construção sintáctica, que já não me era familiar e quase me obrigou a decifrar certo português como latim. E, terceira, o já esperado embaraço — e também vergonha — de traduzir prosa para acção. Como dizia alguém a Scott Fitzgerald, por volta de 1930, não é possível fotografar adjectivos — nem verbos, nem preposições.
O empobrecimento da língua (não só devido à minha idade) custa. Não se lê interminavelmente uma prosa primária — na imprensa e nos livros que vão saindo — sem sofrer as consequências. Um dia, há pouco tempo, uma figura notável dos jornais (um director) resolveu declarar o meu “estilo” antigo. E, na medida em que usa mais de cem palavras, com certeza que é. Mas não me parece que o “estilo” SMS ou o “estilo” TV tenham aumentado consideravelmente a capacidade da expressão humana (e, em particular, da portuguesa). Sei muito bem, e tristemente, que a cultura das letras começa a desaparecer e está, a muito curto prazo, condenada. Mas não deixo de lamentar que o prazer de uma frase, de um parágrafo ou de uma vírgula maléfica se percam para sempre.
Este último ano que passei na televisão não foi feliz, sem culpa nenhuma para Manuela Moura Guedes, que me tratou com inalterável generosidade. À parte a minha má imagem (um understatement), a minha má voz, geral incoerência e péssima dicção, sucede que escrever (um ofício em que me eduquei) é exactamente o contrário de falar. Quem fala improvisa; quem escreve calcula, planeia, emenda, substitui. Os dois processos são contrários. Pior, são incompatíveis. Verdade que a prosa acabou por me levar à televisão: um compreensível acidente. Só que “um homem de letras”, mesmo medíocre, nunca, no fundo, se transforma. Voltar a este privilegiado canto é, para mim, como voltar para casa. Vasco Pulido Valente (Público, de 6 de Setembro de 2009)
No dia 15 de Julho de 1866, António Feliciano de Castilho, seu filho Eugénio e o poeta Tomás Ribeiro vieram a S. Miguel de Seide visitar Camilo Castelo Branco. Ana Plácido, para assinalar o acontecimento, mandou erigir uma lápide que ainda hoje se mantém como um dos pontos de interesse do exterior da Casa de Camilo.
Foi sob o signo dessa visita que se iniciou a Acção de Formação Bibliotecas Escolares, Leitura e Literacias no 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico e Secundário (30 horas), promovida pelo Centro de Formação Associação de Escolas de V. N. Famalicão e frequentada por um grupo de vinte professores – de Português, de Inglês e de Francês, do segundo e terceiro ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário, com o objectivo, justamente, de “visitar” a obra riquíssima do romancista. Mas, como em Camilo, visitar a obra implica visitar a vida, o grupo de formação realizou, no dia 1 de Julho uma visita à casa onde essa atribulada vida se desenvolveu durante mais de vinte e cinco anos e de onde saiu grande parte da produção literária do autor. E, embora esse espaço fosse já conhecido da maioria dos formandos, aquelas paredes, os objectos, os móveis ganham um interesse sempre novo, quando a visita é acompanhada pela leitura de textos camilianos alusivos a esse cenário e quando é guiada e animada pelo Sr. Reinaldo Ferreira.
Castilho e companhia saíram de Seide com saudades daquela “Quinta das Delícias” e da Amélia de Landim. Nós saímos com redobrada motivação para ler e reler a prosa sempre viva do génio de Seide e para a partilharmos com os nossos alunos, tirando-a da prateleira onde incompreensivelmente os programas escolares a deixaram a ganhar pó. João Paulo Braga