LOPES, Óscar – Ensaios Camilianos. Organização, prefácio e notas de Luís Adriano Carlos. Porto: Fundação Engenheiro António de Almeida, 2007. 140 p.
Ao longo de várias décadas, o professor e investigador Óscar Lopes (n. 1917), catedrático jubilado da Faculdade de Letras do Porto, marcou fecundamente o mundo académico português com a sua variada investigação, desde os estudos linguísticos aos estudos literários. Recentemente, de 10 a 14 de Outubro de 2007, por iniciativa da Cooperativa Árvore e com o contributo de diversas instituições, teve lugar uma “homenagem nos 90 anos de Óscar Lopes repartida por vários lugares do Porto e Matosinhos”, com um variado programa celebrativo – “A busca do sentido na vida e obra de Óscar Lopes” – que incluiu exposições, edição de livros, concertos, encontros e um colóquio.
Aliás, já anteriormente foram publicados dois volumes diversos de homenagem à figura e carreira de Óscar Lopes – primeiro, Uma Homenagem a Óscar Lopes, Porto/Matosinhos: Afrontamento/Câmara Municipal de Matosinhos, 1996; depois, Sentido Que a Vida Faz (Estudos para Óscar Lopes), Porto: Campo das Letras, 1997.
Este volume tem a singularidade de reunir os ensaios que o autor dedicou à obra literária de Camilo Castelo Branco, publicados em revistas, em livros ou apresentados em colóquios universitários. Além de facultar uma leitura mais cómoda ao estudioso camiliano, permite uma visão mais integrada da sedução que obra do escritor romântico sempre exerceu sobre este ensaísta. Aliás, é o próprio Óscar Lopes a reconhecer num dos presentes ensaios que o genial e polígrafo escritor de S. Miguel de Seide é “o autor português que mais perplexidades e desencontros judicativos tem desencadeado nos seus leitores”.
Temporalmente falando, as indagações hermenêuticas de Óscar Lopes sobre a obra camiliana, estendem-se desde a década de 1960 – com o ensaio “Os valores em Camilo” -, até 1991, datada em que apresentou a comunicação “Ficção camiliana sobre a época barroca”, no colóquio internacional comemorativo do I Centenário da morte do escritor, evento realizado na Universidade da Califórnia (Santa Bárbara), em Abril de 1991.
Esta colectânea inicia-se com o capítulo dedicado a Camilo na mais recente edição da História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes. Contém ainda os ensaios: “Claro-escuro camiliano”, “Os valores em Camilo” , “Concepção de vida na ficção de Camilo”, “Formas de recepção a Camilo” e “De O Arco de Sant’Ana a Uma Família Inglesa”, além de breves exórdios a duas obras colectivas de crítica camiliana, aparecidas por altura do I Centenário da morte do escritor.
Ao longo destes textos crítico-hermenêuticos, o crítico marxista detém-se na indagação das dominantes ideológicas que perpassam a obra camiliana, nos seus vários estádios de evolução, nomeadamente as possíveis contradições dialécticas entre os princípios idealistas e materialistas, bem como o correspondente maniqueísmo moralizante da sua mundividência, orientações que presidem à construção sacralizada do amor-paixão ou à crítica visão do Portugal burguês e rural de Oitocentos.
Numa altura em que se assiste a uma certa revitalização dos estudos camilianos – com a dinamização de cursos universitários de pós-graduação e a publicação de vários trabalhos académicos sobre o autor, a reedição cuidada das suas obras (pela editora Caixotim, Porto, por ex.) e até a edição de autor em formato de audio-livro – saúda-se a feliz e oportuna ideia da reunião destes ensaios camilianos, por um dos intérpretes marcantes da crítica camiliana novecentista.
José Cândido de Oliveira Martins