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Arquivos para a Categoria ‘Espírito e graça’

Uma mulher bonita entretém, silenciosa.
Perguntei uma vez a um amigo:
-Aquela mulher sabe falar?
- Com os olhos – respondeu ele.
Era verdade. A natureza, para a não fazer perfeita, dera-lhe a língua. Conforme ia falando, a magia dos olhos perdia-se.
(In Um homem de brios)

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Doutra vez, Camilo assistia igualmente a um baile, mas este de máscaras. A meio da noite entrou na sala um sujeito magríssimo, mascarado de espadachim.
Camilo ao vê-lo, dirigiu-se à dona da casa e perguntou-lhe:
- V. Ex.ª, minha senhora, tem boa vista?
- Felizmente, Sr. Camilo.
- Então se tem boa vista, podia dizer-me se este sujeito que entrou agora traz três pernas ou três espadas?

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Os dotes!
E no Porto? Isso então, rapariga bonita, às duas por três, está no papo de um brasileiro que tenha cinquenta contos, tanto faz que ele seja velho, como zarolho, como raquítico.

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- Ceemos. Na cadeia, uma facada é o mais natural presente que eu podia receber em véspera de Natal.
Que noite de festa!
(In Memórias do cárcere)

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- E diz ele que o homem é cavalo?
- O que ele diz leva as mesmas voltas. Deixa-me ver se me lembro… Aí vai alguma cousa do que ele diz: «Os homens gemem; os cavalos também. Os homens sentem muito estar parados e querem andar; os cavalos também. Há homens irremediáveis em ruins vícios; assim há cavalos. Há outros bem inclinados; assim há cavalos. Há homens sôfregos no comer; assim há cavalos. Os homens suam muito; os cavalos também.» … Tenho pena que me não lembrem mais sentenças do sábio Galvão!
- Bastam essas: estou convencido e indeciso sobre saber qual de nós dous é mais cavalo!…
(In O santo da montanha)

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Um abade minhoto pediu-lhe, um dia, um epitáfio para uma pessoa amiga. Camilo compôs uma oitava. O abade quis pagar-lhe os versos com um pataco.
- Aqui tem, Sr. Camilo… O que é bom, paga-se bem!
Logo Camilo, com um grande ar, recusando a moeda:
- Guarde os seus tesouros, senhor abade. Os génios, quando se abrem, são gratuitos como a chuva do céu!

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Havia no Porto, na Rua dos Clérigos, um negociante que tinha cara muito bochechuda. Em compensação, tinha uma filha que era o mais bonito palminho de cara de todo o bairro. Camilo, sempre que passava e via a rapariga, dizia-lhe adeus e sorria, o que não agradava ao negociante, que, por certo, conhecia a fama de Camilo, como conquistador. Ora, uma ocasião em que o romancista se desfazia em sorrisos e cumprimentos para a pequena, o pai desta rompeu da loja, com um côvado na mão, e, em ar ameaçador, voltou-se para Camilo:
- Ó seu sem-vergonha, se vem para aqui desencaminhar a minha filha…
- Sem-vergonha, não! Quem não tem vergonha é você, seu comerciante das dúzias!
- Ah! Eu é que não tenho vergonha?
- Pois claro! – ripostou Camilo – Quando se tem umas bochechas como as suas, não se vem para a rua sem lhes enfiar umas calças!

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Num grupo de que fazia parte Camilo falava-se, um dia, de certa mulher muito conhecida na sociedade portuense.
- Não será bonita – comentou, em dado momento, um dos do grupo – Mas temos de concordar que tem uma cara picante. Não acha sr. Camilo?
- Lá que tem uma cara picante, isso acho – respondeu Camilo – Especialmente nos dias em que não a barba.

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Em 1872, Camilo, que morava, então, no Porto, na Rua de São Lázaro, foi visitado pelo Imperador do Brasil, D. Pedro II, que o condecorou com a Ordem da Rosa. Na pequena sala do romancista, havia, pendurados na parede, além de vários retratos dos Braganças, o retrato do poeta Béranger. O Imperador detinha-se a examinar a pequena galeria, quando Camilo lhe observou:
- Vossa Majestade está contemplando os retratos de seus avós…
- Mal imagina, meu amigo, em que eu estou a reparar! Estou a reparar que Béranger tem uma expressão muito mais feliz do que os meus antepassados…
- E sabe Vossa Majestade porquê? Porque é menos perigoso fazer versos do que decretos!

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Camilo encontrava-se, numa noite, com uns amigos, no café Guichard, do Porto, quando viu entrar certo sujeito. Ergueu-se da cadeira, foi ao encontro dele, abraçou-o efusivamente e exclamou em voz alta:
- Ó Lacerda, ao tempo que te não via!
- V. Ex.ª, Sr. Camilo, deve estar enganado – murmurou o homem, que, como quase toda a gente do Porto, dessa época, conhecia o romancista, não apenas de nome, mas de vista.
- Enganado?
- Com certeza, Sr. Camilo. Porque eu não sou Lacerda: sou Rodrigues.
Logo, Camilo, espantoso de naturalidade:
- Não é Lacerda? Que pena! E eu que precisava tanto de uma rima para mandar a certo sítio um cavalheiro que ali está!

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