No dia seguinte, estava o comendador Leituga em Sobreiras examinando um porco de raça inglesa, que recolhia de ser exposto e proposto a prémio.
- Abençoado sejas tu que tão perfeito saíste! – exclamava o comendador coçando o cevado no focinho.
- E foi premiado! – disse um outro comendador circunstante.
- Premiado! – Acudiu João Fernandes. – Pois cá premeia-se os animais?
- E reprovam-se os vegetais, que estudam francês – acrescentou César, que acertara de estar no círculo cujo centro era o porco premiado.
João Fernandes derramou o olho vesgo sobre o chacoteador, e disse:
- Cuidado com as ventas, Augusto César!… Olha que eu não desatendo ninguém. Fala bem que ninguém te fala mal. Eu falava com o porco.
- Para falares com quem te entenda… – redarguiu o académico.
(In Noites de Lamego)
Arquivos para a Categoria ‘Extratos da obra’
Vitória da tolice
Posted in Extratos da obra, tagged César ou João Fernandes, Noites de Lamego, Vitória da tolice on Abril 2, 2013 | Deixar um Comentário »
O mal…
Posted in Extratos da obra, tagged A enjeitada, encantamento, filho, mãe on Novembro 27, 2012 | Deixar um Comentário »
«O mal não está no meu encantamento; está, e terrivelmente, no encantamento de teu filho. Vocês, as mães, sabem tremer, mas não sabem prever. Não dais tino da nuvem que se carrega e escurenta; mas gritais muito quando o raio se desentranha da nuvem.
- Como tu me atormentas – murmurou ela chorando.
- Não te atormento: previno-te.»
(In A enjeitada)
Retratos do natural
Posted in Extratos da obra, tagged Atanásio, Bíblia, Fialho, mulher, Os brilhantes do brasileiro, retratos do natural on Outubro 16, 2012 | Deixar um Comentário »
O Sr. Atanásio tem quarenta e oito anos, é capitalista, casado, sócio que foi de molhados com o Sr. Fialho, bom vizinho, cidadão pacífico, e aos costumes disse nada. Porém, o povo reza que ele, apanhando em flagrante a esposa numa excursão filarmónica às esferas sonorosas com um caixeiro, tão duro e miúdo tocara o compasso no caixeiro com a batuta de uma tranca, que o rapaz, expulso a couces, chegou à terra e expirou oito dias depois, contando o segredo a sua família.
A esposa de Atanásio, depois de encerrar-se quinze dias no seu quarto, viu abrir-se a porta à força, fez o ato de contrição para morrer cristãmente, e ia expirar de pavor, quando o marido lhe abriu os braços e disse: «Estás perdoada; mas, se fazes outra, escavaco-te.» Desde então o porte desta senhora reduz as Fúlvias e Marcelas a condições indignas dos gabos históricos. Pecadora que passe por ela é visão que a enoja e adoenta. As filhas, quando a escutam discretar em virtudes, cuidam que sua mãe é uma mulher da Bíblia.
(In Os brilhantes do brasileiro)
Cousas leves e pesadas
Posted in Extratos da obra, tagged Cousas leves e pesadas, maioria, Minoria, Popular on Agosto 23, 2012 | Deixar um Comentário »
«… Eu, por mim, nunca serei popular. Todas as minhas obras são feitas para homens escolhidos, e não para o povo. Triste sorte a dos que escrevem para as massas, em vez de escreverem para certas pessoas que têm simpatias e tendências iguais às nossas. Popular! Ninguém se magoe de não o ser. Mozart e Rafael nunca o foram. Não me comparo a esses nomes sublimes; mas tudo o que é grande e ilustrado pertence exclusivamente à minoria. A minoria representa a razão pura; a maioria é o símbolo do turbilhão, da paixão, da irracionalidade…»
(In Cousas leves e pesadas)
… que fará quando for doutor?
Posted in Extratos da obra, tagged Estudos, vinganças, Vulcões de lama on Agosto 7, 2012 | Deixar um Comentário »
Com o intento de ressalvar o filho da vingança do João Gaio e esperar que o tempo conjurasse o perigo, pediu Balbina com muitas lágrimas a Roberto que mandasse o Artur para Coimbra, e contou-lhe tudo. «Se ele com poucos estudos já é tão patife que desonrou a prima e não quer casar com ela, que fará quando for doutor?» Esta refutação do analfabeto Roberto Rodrigues é a condenação da instrução primária como inútil para se pensar e exprimir com acerto.
(In Vulcões de Lama)
Não pedi esmola, pedi trabalho.
Posted in Extratos da obra, tagged A neta do Arcediago, esmola, Trabalho, Vocação on Maio 1, 2012 | Deixar um Comentário »
…
- Mas não há outro recurso contra a fome senão pedir esmola?
- Ou roubar.
- E o trabalho?
- Ah! Sim… Não me lembrava o trabalho… mas que trabalho? Eu não sirvo para nada, não tenho força nem vocação.
- Adquire-a, Luís. Tu não me conheceste em outro tempo? Imagina alguém, há oito anos, que eu viria s ser um amanuense de advogado, e mais tarde um negociante de curtumes? Eu tive fome, Luís. Deitei-me algumas vezes em jejum, e levantei-me sem a certeza do almoço. Não pedi esmola, pedi trabalho. Olha as minhas mãos… não vês estas durezas? Estão calejadas, mas nunca senti aqui o contacto de uma moeda de cobre como esmola. Trabalha Luís.
(In A neta do Arcediago)
Liberdade
Posted in Extratos da obra, tagged As três irmãs, liberal, Liberdade on Abril 24, 2012 | Deixar um Comentário »
…
- Senhor liberal!, faz favor de me dizer o que é a liberdade?
- A liberdade é um direito que cada homem exerce de ser igual a outro homem perante uma lei ilustrada.
- Logo – acudiu o capelão – o Sr. Alberto é igual a todo o homem.
- Certamente.
- E, como a lei não proíbe que o homem da cavalariça venha sentar-se a esta mesa, e comer destes pastéis, o Sr. Alberto não leva a mal que o homem exerça um direito, uma liberdade que a lei não impede.
…
(In As três irmãs)
DURANTE A FEBRE
Posted in Extratos da obra, tagged abril, Acácia do Jorge, Febre, filho, mãe, sepulcro on Abril 12, 2012 | Deixar um Comentário »

À porta do sepulcro, ainda volto a face
Para ver-te chorar, ó mãe do filho amado,
Que vê, como num sonho, a cena do trespasse…
- Sorve-lhe o eterno abismo o pai idolatrado.
Talvez que ele, a sonhar, te diga: “Mãe não chore
Que o pai há-de voltar…” Quem sabe se virei?
Quando a Acácia do Jorge ainda outra vez enflore,
Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei
(In Poesias Dispersas)
Carnaval no Teatro de São João
Posted in Extratos da obra, tagged Carnaval, entrudo, Quatro horas inocentes, Teatro S. João on Fevereiro 20, 2012 | Deixar um Comentário »

Era em 1850, segunda-feira de entrudo. Entrei no Teatro São João, de braço dado com um amigo que dois anos depois pereceu no naufrágio do vapor do Porto. Era José Augusto da Silva Pinto, um dos mais gentis e galãs mancebos daquele tempo.
Trajava ele um riquíssimo costume de Richelieu com o qual ia distinguir-se naquela noite no baile da Assembleia. Eu vestia uma rota e suja casaca de 1810, que alugara por doze vinténs, e completava o disfarce com um chapéu de castor branco que o meu criado me emprestara…
O contraste impressionou as damas. Não sei até se a democracia cristã do duque de Richelieu, prestando o braço a um maltrapido simulacro de mestre-escola com três meses de atraso, fez marejar nos olhos do público as lágrimas duma piedosa compunção. Às dez horas o meu amigo foi para o baile e eu fiquei no teatro embevecido num primor de olhos divinos que há vinte anos me seguem, e me vão precedendo no curto caminho da cova, que breve me há-de remir, mas eu sei que a luz daqueles olhos há-de ir comigo, céu ou inferno dentro, ou como estrela que entre na sua constelação, ou como lágrima luminosa dum anjo caído no abismo. Ó formosos olhos, nunca puderam prantos apagar-vos essa luz imorredoura! Se eu diria naquele noite de segunda-feira de entrudo…
(In Quatro horas inocentes)
Com comendas e bolos se enganam os tolos
Posted in Extratos da obra, tagged As aventuras de Basílio Fernandes Enxertado on Fevereiro 9, 2012 | Deixar um Comentário »
“…Vários amigos meus lhe chamaram em letra redonda a flor da mocidade portuense; e eu mesmo, dando a nova funesta da queda, chamei-lhe inteligente; mas como na oração havia dois agentes, ele um, e o cavalo outro, o público fez-me o favor de duvidar se eu chamava inteligente o cavalo, ou o Basílio.
Saiu à rua o ilustre convalescente, e foi de carruagem pagar a visita a Manuel José Borges, que duas vezes o visitara, em companhia de D. Custódia.
Etelvina, segundo o despachante disse em particular a Basílio, desde a fatal queda, nunca mais foi boa! O sobressalto, o desgosto, e o receio de que alguma entranha se deslocasse no interior do seu companheiro de infância, adoentaram-na até cair de cama, e ter febre.
Isto era mentira.
Feia traça aquela a que um pai se prestava, demais a mais aconselhando-a! Baixo sentir o de uma menina de dezanove anos, que quer realçar méritos com embustes e imposturas nauseabundas!
Engoliu a arara o palerma. Palerma, digo eu!
Quantas engoli eu assim! Quantas tem engolido o leitor! Quantas engoliremos até que a sepultura nos engula!…
E chorou o pobre tolo, quando tal ouviu! Ora, digam-me se não está uma bela alma naquele corpo, e grande alma talvez naquela grande cabeça, onde graves psicologistas dizem que ela se aloja!”
( In As aventuras de Basílio Fernandes Enxertado)