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Arquivos para a Categoria ‘Lugares da vida e da ficção’


«Logo adiante estava o presbitério. O sino deu as nove badaladas das Trindades. Pareceu-me ouvir padre António dizer em voz soturna as palavras que lhe ouvira proferir, com as mãos postas, durante dois anos, àquela hora. O anjo de Senhor anunciou. Maria concebeu por obra e graça do Espirito Santo… Cuidei que o via e ouvia. Era ele a esperar-me. Em pessoa ou em memória aqui me encontrareis em qualquer tempo. Lá estava. Fui ao quarto onde dormíamos. Toquei em alguns dos seus livros. Sentia nas mãos a frialdade dum crânio. Meu sobrinho mostrou-me uma Arte da Língua Francesa em que eu, aos quinze anos, escrevera não sei que parvoiçadas sentenciosas. Sentia-me oprimido, doente, arrependido de ali vir levantar os fantasmas de uma numerosa família morta. Noite cerrada, saí de Vilarinho; e ao passar, de novo, rente com o presbitério, ouvia-se o estridular das cigarras, e o frémito dos morcegos que se esvoaçavam à volta do campanário.»
(In Serões de S. Miguel de Ceide)

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Montámos outra vez nos milagrosos animais, e fomos visitar a igreja de Leça que, pela sua antiguidade e recordações históricas, é muito digna de ver-se. Vimos, com efeito, a gótica arquitetura do templo; dominámos as verdes campinas de redor, do alto da torre, e fui dar aos foles do órgão, para o meu companheiro tocar o hino da Maria da Fonte, coisa por que damos um cavaco, como não há coisa pela qual mais cavaco se dê. Subimos pela terceira vez à superfície aguda dos fouveiros, e viemos em demanda da lampreia, que já estava pronta quando, pacatos e quedos, chegámos à taverna que, à fé de cavaleiros de podres rocins, deve ficar aqui consignada como uma das tabernas históricas do Porto, neste ano do Senhor de 1849.

(In O Nacional)

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É que sinto a nostalgia daquela povoaçãozinha, há muitos anos – uma saudade inveterada como a reminiscência dum primeiro amor, e único feliz. Na minha mocidade, nada mais vejo. Não nasci lá; mas aí foi que me alvoreceu o arrebol do entendimento, a ânsia de trasladar ao papel o dilúculo dessa alvorada; foi ali que fiz os meus primeiros versos… versos, meu Deus! não – a primeira página da minha biografia de lágrimas.

A aldeia chama-se VILARINHO DA SAMARDÃ. Demora em Trás-os-Montes, na comarca de Vila Real, sobranceira ao rio Córrego, no desfiladeiro de uma serra sulcada de barrocais.
(In Serões de S. Miguel de Ceide)

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Dizem-me que este botequim ancestral e que esta hospedaria – a matriarca das estalagens portuenses – vão ser derruídos pelo camartelo e pela esquadria municipais. Vamos, pois, cair ao mesmo tempo no abismo da história, eu e a hospedaria da Águia que ainda conserva, com o cheiro das suas inalteráveis costeletas seculares, uns aromas primaveris da minha juventude.
(In Boémia de espírito)

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«Cheguei à margem direita do rio Tâmega, no ponto em que ele extrema as duas províncias do Norte.
A passagem do rio é feita por barcos; quando, porém, as chuvas engrossam a corrente, o Tâmega é mais caudal e perigoso que nenhum outro rio de maior pujança.»

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A tarde era de agosto
O oceano murmurava os seus poemas misteriosos.
Lepsa, a donosa namorada das ondas, reavia-se no cristal onde as estrelas do céu espelhavam.
Na praia, onde o castelo projetava uma sombra melancólica, agrupa-se uma família, onde havia a formosura dos cabelos brancos em velhice venerável e formosura dos anos floridos uma mocidade imaculada.
S. João da Foz,
Camilo Castelo Branco

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«Era um dia de Agosto, romagem da Senhora da Guia, cuja capela alveja na Chã, que se aplana na quebrada da serra do Alvão.
Teresa foi lá cumprir a promessa das vinte voltas de joelhos em redor da capela. Com ela foram o irmão, e Bernardo, e parentes e amigos deste, entre os quais estava um padre.
A moça deu as vinte voltas. Posto que robusta, às dezoito bateu com a face no lajedo do adro. Quis erguê-la Bernardo; mas ela continuou, quase a rojo, afincando já os cotovelos na pedra.»
(In Doze casamentos felizes)

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Foi a 15 de julho de 1866 que «o príncipe da lira portuguesa» António Feliciano de Castilho visitou a Tebaida de Ceide, onde foi recebido com mostras de maior alegria e admiração, no meio de iluminações e desnates. Ao «príncipe» ficaram associados os nomes de Tomás Ribeiro, Eugénio de Castilho e Vieira de Castro, embora este à última hora tivesse de adiar a visita. Lá está a «Pedra» a relembrar para a posteridade a data e os intervenientes neste convívio de artistas, que tanto animou e alegrou aquela soturna e triste «Casa Assombrada».

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«Chegaram as férias, fiz acto de anatomia, e fui premiado com um indulgente R. De boa vontade aceitava eu três, contando que me deixassem sair mais cedo. Esperava-me o cavalo com a magra mala.»
(In Duas horas de leitura)


Edifício da Faculdade de Ciências (atual Reitoria da Universidade do Porto)

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“Faleceu-me ânimo para entrar no teatro de Vila Real, onde mancebos de primoroso engenho, que os há ali para tudo, representavam regularmente. Aquele teatro era de minha família; nunca teria nascido, se eu não tivesse escrito um mau drama, que dediquei a meu tio. Mas que ambiente de mil aromas eu respirava naqueles meus vinte anos! Como as paixões de então me desabrochavam lindas e imaculadas! O que eu via, e esperava dos homens e de Deus!
Na primeira noite da récita, recordo-me eu que fiquei ouvindo de minha tia a história de meu avô assassinado, de meu tio morto no degredo, de meu pai levado pela demência a uma congestão cerebral.”
(In Memórias do Cárcere)


O teatro de Vila Real onde, em 1846, foi representada Agostinho de Ceuta, a primeira peça de teatro de Camilo. O edifício já não existe.

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