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Archive for the ‘Caminhada Camiliana’ Category

Nestas noites em que os museus estão de portas abertas ao público, nas comemorações do Dia dos Museus, os funcionários da Casa Camilo Castelo Branco, do Centro de Estudos Camilianos e do Grupo de Caminheiros da GRUCAMO, em Seide, Vila Nova Famalicão, meteram pés a caminho e convidaram o público a percorrer e a viver os trilhos de Camilo, conforme apelidaram de: “Cangosta do Estêvão.”
“Pelos caminhos deste recanto minhoto percorridos pelos passos de Camilo nas suas deslocações a Landim, vamos hoje reviver esses momentos de evasão do nosso romancista.”
Apesar do tempo chuvoso, ultimaram-se os preparativos para a caminhada no átrio do Centro de Estudos Camilianos. Alguns vestidos a preceito, outros bem resguardados de capa e guarda-chuva, partimos nós de autocarro até ao Mosteiro de Landim. Ali começaram as pequenas dramatizações relatando episódios do romancista, das suas Novelas Minhotas e até da Murraça. Foram quatro momentos divertidos, de lanterna em punho alumiando os ‘escritos’ e… os pés das damas de vestido longo, que foram arrastando os seus vestidos rendados nos lamaçais dos caminhos. Houve alturas em que os perigos eram eminentes, não pelos assaltos do Zé do Telhado, mas pelas escuras ruelas, pelos carreiros lamacentos em campos recém-lavrados, pelas silvas encobrindo bermas – onde um passo em falso nos levaria a desaparecer na escura noite ou, no riacho Pele. Valeram-nos os caminheiros da Grucamo, muito experientes nestas cousas de perigos, abrindo braços e protegendo-nos as bordas.
O nosso anfitrião, Camilo Castelo Branco, protagonizado pelo guia do museu, o Reinaldo, cavalheiro de falas de cor, de conhecimento profundo da obra, que leva os ouvintes a pensarem-no possesso pelo pensamento do romancista descabelado – como diria António Joaquim se se apeasse da liteira e assistisse a tal procissão nocturna.
Com Camilo à conversa desde o Mosteiro de Landim, mais o Cego, mais a Brasileira de Prazins e a Maria Moisés, éramos chegados ao Centro de Estudos para descanso da passeata, percorridos 2.400 metros.
E para animar a malta, já que na vida do representante de Camilo há uma boina e uma viola, aí temos o Reinaldo mais a sua cantadeira – a Fátima, que juntamente com o resto do grupo “Pedra D´Água” dão vida a um serão de província.
E como surpresa final, num ambiente descontraído e alegre, retemperaram-se energias com os tradicionais rojões à moda do Minho, pão de milho, caldo verde e um bom vinho; tudo servido em louça de barro com a inscrição de “Casa de Camilo” – para que não restassem dúvidas.
Assim terminou uma noite que ameaçava chuva… mas não choveu e deu vida a um Museu […]
Lucília Ramos

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“Vila Nova de Famalicão, 11 de Junho de 2008

Ontem de manhã, vindo da cidade do Porto, onde se deslocara para tratar de assuntos relacionados com a publicação do seu próximo romance, chegou a Vila Nova, acompanhado da Senhora D. Ana Plácido, o eminente escritor Camilo Castelo Branco.

Apresentando-se menos indisposto e mais cordial do que é hábito, o novelista foi recebido na estação do caminho-de-ferro pelo amigo António Vicente, proprietário da Quinta e Mosteiro de Landim, e por muitas outras pessoas gradas deste concelho, bem como pelo asno bacharel que o escritor mandou comprar há tempos a Neves e Melo no campo de Coimbra, onde permanece ainda a raça do burro espirituoso e meio académico criado entre a Mealhada e os Fornos.

Porque se recusasse a montá-lo, o novelista deslocou-se a pé até à sua residência, passeando a franzina elegância pelas avenidas da vila e pelos caminhos campestres, já não de macadame, que de Antas levam até Seide. A ordem processional da jubilosa caravana era a seguinte: na frente, num andar mesurado, grave, ponderoso e solene, ia o ilustre bacharel já referido, e, a alguns passos de distância, Camilo, rodeado dos seus amigos e admiradores. As senhoras, venturosas, a mais não poder, desenferrujavam as línguas, enquanto os cavalheiros, de olho na crise, falavam dos direitos do cidadão, do modo de enganar o fisco e da maneira de enriquecerem.

No trajecto, o Senhor Camilo não cerrou os ouvidos à versalhada jocosa dos cantadores ao desafio na alameda D. Maria II, nem se negou a assistir, às suas portas, e sob os auspícios de S. Bartolomeu, a práticas exorcistas numa menina que fora visitada pelos espíritos infernais. Houve ainda tempo para o escritor cumprimentar o seu amigo José do Telhado, companheiro e guarda-costas das cacetadas dos esbirros de Pinheiro Alves nos cárceres da Relação do Porto.

Chegados ao quintalejo do Centro de Estudos recentemente criado em sua honra, junto à sua velha casa, em Seide, abancaram os participantes à sombra das macieiras, em cujos troncos as matronas penduraram as mantilhas cuidadosamente dobradas pelo festo, e eles as casacas com igual esmero.

Antes de o romancista se retirar, ofertou, por sorteio, recordações camilianas e algumas canastras de produtos PRIMORosos, agradecendo à Câmara Municipal, à Junta de Freguesia local, à Grucamo, à Grutaca, à Milho d’Oiro, à Didáxis de Riba d’Ave e a todos os agenciadores desta funçanata as atenções com que se dignaram honrá-lo em dia tão festivo e soalheiro.

Anastácio das Lombrigas

Correspondente de “O Nacional”, em Vila Nova de Famalicão”

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Impelido pelo gosto literário que nutro por Camilo, acicatado pelo recente prémio de “Melhor Museu Português”, atribuído à Casa Museu de Camilo Castelo Branco, e empurrado pela necessidade de combater o meu sedentarismo, resolvi participar na Caminhada Camiliana, organizada por esta entidade. Era já a terceira edição e realizou-se na passada terça-feira, 10 de Junho. Feriado Nacional, Dia de Portugal e do vulto maior das letras Lusas, Camões. Ditoso conceito, o de associar o nosso maior escritor romântico ao nosso maior poeta. O tempo, que tem andado incerto e pouco condizente com a estação, amanheceu risonho e acolhedor. Dia propício, pois.
Numa atitude expectante, lá compareci no adro fronteiro à Casa Museu de Camilo, cerca das 9.00 da manhã, de onde se fazia o transporte em autocarro para a estação dos caminhos-de-ferro de Famalicão. Local donde, pelas 9.30, simulada a chegada de Camilo a Famalicão, se daria início à caminhada. Quando cheguei já se encontrava à espera uma trintena de pessoas, a maioria delas da aldeia trajada a rigor, com vestes do Sec. XIX, que logo entabularam animada e amistosa conversa comigo: tendo sempre Camilo como pano de fundo e a participação na caminhada como motivo de orgulho. Presidente da Junta incluído. Orgulhoso da sua participação na organização, no transporte e na angariação de “figurantes” para o evento. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades …” escreveu Camões e pensaria certamente Camilo, se fosse vivo. Uma aldeia que tão mal o recebeu em vida tem nele, agora, o seu maior motivo de orgulho, quase uma razão de ser.
Estupefacto contudo fiquei, quando decorridos os 15 minutos de viagem de Seide até à estação de comboios de Famalicão, com a multidão que se concentrava para o início da caminhada. Era uma miriade de pessoas composta por homens e mulheres de todas as idades e condições, crianças e pessoas mais idosas e até meninos de colo, confortavelmente instaladas nos seus carrinhos de bebé, preparadas para vencer os 7,5 Km que nos esperavam. Encontrei naquela mole humana, que se acotovelava, amigos, familiares e até uma colega de curso que não via há 20 anos. Todos unidos por um objectivo comum: o gosto pela obra de Camilo. Alegrou-me sobremaneira constatar, que apesar do total desprezo a que as autoridades nacionais têm votado Camilo, ele mantém esta força e capacidade de mobilização. Claro que este potencial tem que ser catalisado e canalizado para que não se perca e se reforce. Nesse sentido, comprovei o esforço, o profissionalismo e eficiência que toda a equipe da Casa de Camilo e outras Associações de S. Miguel de Seide demonstraram na organização do evento: quer pela quantidade dos figurantes, com charrete incluída, quer pelos cuidados trajes que albergavam, e que encimando o cortejo davam um tom festivo e simultaneamente um nostálgico ar Camiliano à realização. Quer ainda no desempenho das tarefas cénicas com que abrilhantaram o percurso. Era notório a alegria, o empenho, a dedicação, o brio, a quase paixão com que representavam trechos bem-humorados da prosa Camiliana.
Foi sem dúvida um tremendo sucesso. Que melhor celebração da Portugalidade se pode aspirar, que aliar os valores da cultura nacional com a participação popular activa e empenhada.
Apesar de ser fim-de-semana alargado, devido à “ponte”, maugrado a situação difícil que o País atravessa, é edificante e muito reconfortante ver e sentir que Portugal afinal, não é como muitos querem fazer crer, apenas e só futebol.
Está pois de parabéns a Casa de Camilo e todos os seus colaboradores, Associações locais e Câmara Municipal, pelo êxito alcançado e pelo meritório e meticuloso trabalho que vem desenvolvendo em prol da divulgação da obra de Camilo Castelo Branco.
Constatando-se a determinação desta gente, em fazer bem e, sobretudo, mais e melhor, e envolvendo as populações e associações locais juntamente com as escolas, facilmente se compreende que este Museu, apesar de distante do centralismo de Lisboa e inserido no interior rural, tenha sido considerado, no ano transacto, o melhor de Portugal.
Bem hajam.
Rui Domingues

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Finalmente arranjei disponibilidade para participar numa caminhada destas (à 1ª e à 2ª não pude ir, com muita pena). Ainda bem, porque gostei muito. Tudo me surpreendeu positivamente, a começar pela presença de tantos “figurantes”, devidamente trajados, na estação de Famalicão, onde, em consequência, ficou criado o ambiente social da época camiliana. Aí mesmo, uma breve representação, pondo em destaque Sua Excelência o “bacharel que veio de Coimbra” (o burro, já bem aliviado, no momento, das suas básicas necessidades), motivou gargalhada geral e boa disposição para o arranque da jornada. Outras representações se seguiram durante o percurso, bem como cantares ao desafio, sempre inspirados na figura de Camilo Castelo Branco, mas a que de facto mais apreciei foi a cena do Zé do Telhado, já em Ceide, S. Paio.
Para além de aqui deixar explícito o apreço que me mereceu o programa desta iniciativa cultural, não quero deixar de assinalar outro aspecto que me parece importante e que motivou nova surpresa pela positiva: a adesão de tanta gente a este desafio, e sobretudo a presença de tantos jovens! Em dia feriado, supostamente dedicado a umas horas acrescidas de sono e relaxe no conforto dos lençóis, muitos rapazes e raparigas optaram por caminhar durante uma manhã, obrigando-se para isso a cortar à “preguicite” de que tantas vezes são acusados. Bem haja toda esta gente que me fez companhia na 3ª Caminhada Camiliana. Louvor especial, como atrás disse, à juventude não preguiçosa, mas laboriosa. Louvor especialíssimo aos promotores desta iniciativa, que dá à população de Famalicão oportunidade de manifestar, de forma tão viva e elevada, o seu orgulho no seu Camilo. As festas da cidade muito têm a ganhar com realizações como esta.
Para o ano, cá estarei de novo. Mesmo que não me saia o cabaz da Primor.
Maria Luísa Lamela

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Participei, este ano, pela primeira vez na Caminhada Camiliana que já vai na sua 3.ª edição e, pelo que pude ver e ouvir, o sucesso é cada vez maior.
O bom tempo parece que, finalmente, veio para ficar, e também não desiludiu os caminhantes, que eram muitos, presenteando-os com um belo dia de sol.
Trajados à época de Camilo ou “à civil”, percorremos uma distância de quase 8 km desde a estação da CP de V.N. de Famalicão até à Casa de Camilo, em Seide S. Miguel.
Durante o percurso fomos surpreendidos com cantares ao desafio, “exorcismos” e até “assaltos com paus ferrados”! Foram uns bons momentos de descontracção.
Penso que o único contratempo foi para os automobilistas que, na manhã deste dia, passaram pela EN 573. Isto porque quase “foram obrigados” a fazer uma marcha lenta, que não era para protesto por causa dos combustíveis! O nosso não faltou embora tivesse demorado a chegar a todos os participantes, o que se compreende porque éramos umas centenas.
Os parabéns aos organizadores e a todos os colaboradores deste evento, e a esperança de que se continue a realizar pois a adesão será, com certeza, muito boa porque, nos tempos que correm caminhar é o melhor remédio (para a saúde e para a carteira).
Lucília Machado

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A decisão em participar na Caminhada Camiliana acabou por ser tomada entre a torrada, o café e a apreciação de uma manhã que estava a convidar, do outro lado do vidro da janela da cozinha.
Saí!
A estação estava cheia e passei pelas pessoas que não conheci, com a sensação de não estar a pertencer àquele mundo. Não sei porquê! E também nem sei que esperava. Mas juntei-me!
E começa a aventura!
Agradável aventura, diga-se!
Primeiro, o passeio é dos que valem a pena. Curto, variado, acessível!
Um início urbano que, paulatinamente e sem quebra, se vai preenchendo de ruralidade. Quase daria para esquecer Camilo e lembrar apenas “Minhos” antigos, num passeio ao contrário do tempo, desde uma estação de hoje (impessoal apeadeiro automático de urbanos) até aos sítios onde foi possível ouvir dizer “Pai, é aqui que se faz o milho, não é?”, e Santiago, claro!
Mas nunca Camilo nos deixou. A figura rompe, querida, por entre as gentes e graceja com os convivas e o “chefe da estação”. Segue, a pé, a avenida. Com ele, Ana Plácido, outros acompanhantes, rigorosamente ataviados e uma pequena multidão de povo passeante como eu!
Achei que o ritmo ia ser muito lento e que, a ser assim, teríamos para uma manhã inteira!
O sol começava a aquecer e quando parámos no centro da vila a coisa é que começou a valer a pena. Se tínhamos timidamente sorrido, à saída da estação, com um primeiríssimo quadro ali executado, rimos abertamente com os cantadores ao desafio que aprimoraram humor e brejeirice bastante!
Continuado o passeio, a distância entre os figurantes e os caminhantes vai sendo mais curta e é consolidado o envolvimento com Camilo. A composição de quadros relacionados com a vida do escritor favorecem esse envolvimento e fazem passar, cada um dos passeantes, de assistente de espectáculo a parceiro de Camilo, quase confidente!
E assim, os quilómetros até Seide (poucos, diga-se, e poderiam ser mais…) acontecem sem se notar e a última curva da estrada revela-nos a Casa de Camilo e o final da marcha.
Esta acabou graciosamente. A cada participante foi fornecida água em dois momentos do percurso e entregue uma senha numerada que o habilitou ao sorteio de alguns cabazes oferecidos por uma firma da região. Toda a gente ganhou… quem levou os cabazes, quem viveu momentos de silenciosa esperança, quem ofereceu os ditos e a organização, que encontrou uma forma bem discreta de contar os participantes.
Pena que as novas estradas se desenharam sobre os caminhos velhos de melhor traçado e aí o encontro com Camilo, entre ramadas e milheirais haveria de ser mais puro.
Jorge Pimentel

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