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Archive for the ‘Epistolografia’ Category

Ill.mo e Ex.mo Sr.

Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa n’este país durante 40 anos de trabalho.
Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego.
Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas.
Há poucas horas ouvi ler no Comercio do Porto o nome de V. Ex.a. Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança.
Poderá V. Ex.a salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procura-lo. Não posso.
Mas poderá V. Ex.a dizer-me o que devo esperar d’esta irrupção sanguínea n’uns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue?
Digne-se V. Ex.a perdoar á infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia por um homem que não conhece.

Camilo Castelo Branco

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A Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão adquiriu a importante carta de Camilo Castelo Branco escrita para o rei D. Luís, num leilão levado a efeito pela Livraria Luís Burnay, em Lisboa, durante o qual foram à praça valiosos manuscritos, autógrafos e fotografias.
O original autógrafo agora da posse da Casa de Camilo é a notável carta que o romancista de Seide escreveu ao Rei D. Luís a agradecer o facto de ter sido agraciado pelo monarca com o título de Visconde de Correia Botelho, por Decreto de 18 de Junho de 1885.
Trata-se, na realidade, de uma das mais significativas cartas endereçadas por Camilo, entre as quinze mil que escreveu ao longo da sua vida. Em 1870, o romancista encetou um combate sem tréguas com o objectivo de obter um título nobiliárquico, por ver na mercê realenga a justa recompensa que lhe era devida pelas fadigas, dedicação e eficiência ao serviço da Literatura e do País. Depois de porfiada luta e de afrontas virulentas à Casa de Bragança, e do empenhamento de alguns dos seus amigos mais próximos (bispo de Viseu, Rodrigues Sampaio, Tomás Ribeiro…), Camilo recebeu, aos 60 anos, a carta de nobilitação que significava uma aposentação condigna, mas também o reconhecimento por parte dos poderes públicos, tardio embora, dos seus incomensuráveis méritos e da sua inimitável fecundidade. Reconfortado e grato pela generosidade do rei D. Luís, o escritor envia uma carta, datada de São Miguel de Seide de 2 de Julho de 1885, a expressar-lhe o seu contentamento não só pela mercê mas também pela circunstância do “nome de Sua Majestade ficar vinculado à [sua] obra pelo testemunho que a mercê concedida lhe assinala em valor e duração”.
Estamos perante uma excelente aquisição, tanto mais que a carta tem, em anexo, uma reprodução tipográfica desta carta, que circulou na época, e hoje é já peça de colecção muito rara, uma gravura aberta em aço com o retrato do autor e uma fotografia da época do escritor, com assinatura autógrafa de Camilo.

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