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Archive for the ‘Livro do Mês’ Category

Ao reler Camilo, vejo-o reencontrar-se com as suas memórias No Bom Jesus do Monte, divagando e reflectindo uma última vez por entre os arvoredos “em rebates de saudade”. Este livro, onde relata amizades e amores que testemunhou ou viveu nas suas diversas estadas no sagrado monte entre 1835 e 1863, no dizer do próprio escritor “Fez-se a pedaços, ou a pedaços o coração o foi encadernando nas florestas do Bom Jesus do Monte.” As suas “carvalheiras”, “o cerrado arvoredo da Mãe-d’Água”, as “salas tapetadas de relva e abobadadas de folhagem” são o cenário privilegiado daqueles episódios.
As primeiras lembranças recuam ao tempo em que o autor, criança e órfão há dois meses, vai pela primeira vez ao Santuário. Dessa visita o que “ainda indelevelmente” divisa são exactamente “as grandes árvores, as sombras escuras, os penhascos musgosos”.
Esse amor pelas árvores confessa-o logo na dedicatória ao amigo de Guimarães, em jeito de carta datada de 6 de Março de 1864. Aí, receando estar a alongar-se demasiado nas suas referências ao sucessor do majestoso carvalho que no tempo de Frei Bartolomeu dos Mártires existiu no lugar de Ruivães, justifica assim o seu entusiasmo: “Desculpe, Francisco Martins, estas delongas à conta de uma árvore. Você sabe que amor eu tenho às árvores. […] Este livro que eu lhe dedico tem muito com arvoredos.” A confirmar esse amor, formula mesmo um especial desejo: “A minha ambição é possuir uma árvore que me cubra com um pavilhão de folhas a casa de sete palmos, que hei-de comprar num cemitério […] quando o preço de um livro me der para a sepultura e para a árvore.”
Mas a verdadeira exaltação das árvores e a evocação do refrigério da sua sombra e do bálsamo da sua música, essa é feita no intróito, cujas primeiras palavras são para elas: “Estas árvores são minhas amigas há vinte e sete anos. Vim hoje aqui despedir-me delas: creio que para sempre me despeço. […] Eu já encaneci; e elas verdejam exuberantes de seiva. Faço trinta e oito anos, inclinado à sepultura; e elas têm três séculos que viver, trezentas primaveras para se vestirem de galas novas. Meus netos virão saborear-se em vossas sombras, ó carvalheiras, ó verdes pavilhões que me cobristes nas máximas tristezas e alegrias de minha vida!”
Insistindo no consolo que traz a música das árvores, diz mais adiante: “Dá Deus estas harpas místicas aos arvoredos em benefício dos ânimos conturbados, que se acolhem fugitivos a ermos onde eles cuidam que o Céu os há-de ouvir.” Essa é para ele a música verdadeiramente reparadora e divina, e é em defesa dela que condena a prática em uso na época de fazer acompanhar as cerimónias religiosas de música profana: “Acalentava a música o exasperado Saul. Bons tempos! A música de agora é irritante. Há pouco entrei no templo: o sacerdote consagrava a hóstia, e o órgão entoava a Traviata. Santo Deus! Quem quiser música de adormecer dores, e levantar a alma à sua origem, há-de pedi-la à viração e à folhagem das florestas.”
Mesmo se a melancolia dos bosques inclina à tristeza ela é referida como uma tristeza “generosa” e que desperta “salutares pensamentos”, porque é uma “tristeza que nos vem esmolada do Céu.” É entre o arvoredo que se ouvem melodias genuinamente inspiradoras e apaziguadoras e se aprende a soletrar a verdadeira vida: “São as árvores uns grandes livros abertos, onde todos deletreamos coisas que não constam da Via-Sacra,…”.
Para melhor explicar essa voz das árvores, cita versos das Contemplações de Vítor Hugo, como: Crois-tu que Dieu […] / Aurait fait à jamais sonner la forêt sombre, […] Et qu’il n’aurait rien mis dans l’éternel murmure? […] / Tout parle. Et maintenant, homme, sais-tu pourquoi / Tout parle? Écoute bien. C’est que vents, ondes, flammes, / Arbres, roseaux, rochers, tout vit! / Tout est plein d’âmes. Também aqui, o escritor não perde a oportunidade de um toque mordaz: “Se o zeloso clero das cercanias do Bom Jesus vertesse à letra o tout est plein d’âmes, e o livro, que tal afirma, não escapasse ao Index do sacro colégio, veríamos as florestas mansíssimas da montanha invadidas pelos exorcistas e pelo machado, modos sabidos de afugentar almas das árvores. O grande poeta queria dizer que as árvores têm vozes misteriosas, e os corações audição interior que as escuta, e o entendimento lucidez que as compreende.”
Porque Camilo entendeu essas vozes e colheu paz e bem-estar junto dos arvoredos do Bom Jesus do Monte, as últimas palavras do intróito são de tristeza e saudade: “Quando lá ia, voltava sempre melhor. Nunca me aconteceu outro tanto ao dobrar a última página de livro de moral. Enquanto eu soube ler nas folhinhas das árvores, ia lá: agora que o gear da desgraça e do trigésimo oitavo Inverno […] me vai oxidando a alma, que iria fazer eu lá? Já não sei ler aqueles poemas, aqueles sublimes evangelhos, que o Senhor mandou escrever ao seu máximo apóstolo: a natureza. / Se eu tivesse filhos, havia de ir ali passar com eles três meses cada ano. De madrugada, e aos primeiros assomos da noite, iríamos ao bosque da Mãe-d’Água, e ouviríamos a glória do Senhor narrada pelos Céus. E mais nada. / E os meus filhos seriam bons.”
O significado e o poder que vimos conferido às árvores e à sua música fazem-nos sentir no ar o inefável eco de uma melodia que nunca deixará de se fazer ouvir apesar do ruído do mundo. Se quisermos crer nas afirmações do escritor de que “Chorar nas matas do Bom Jesus é chorar em presença de Deus” e de que é Deus que dá “estas harpas místicas aos arvoredos em benefício dos ânimos conturbados”, teremos como certo que a harmonia da natureza prevalecerá pois, sendo a música das árvores uma dádiva divina, ela estará imune à dissonante actuação dos homens. Saibam eles preservar o templo e as florestas da sagrada montanha de modo a que seja positiva a resposta dos vindouros à questão que Camilo deixa no ar: “De hoje a trezentos anos […] Quem me diz que haverá árvores e serra por lá?!”
Helena Laranjeiro

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A cada um seu Camilo, está visto. Na verdade, a obra do nosso escritor é um mundo tão vasto e proteico que dificilmente se poderá encontrar alguém que o não admire e aprecie em alguma das suas facetas. Há quem prefira nele as histórias de amores contrariados e lágrimas. Há quem prefira as páginas de sarcasmo ou, quando em maré de benevolência, de ironia – de toda a maneira, troça implacável. Há quem prefira o manejar do varapau de polemista invencível. Há até quem prefira o coca-bichinhos de miuçalhas históricas e genealógicas. Há sempre um Camilo que nos diz qualquer coisa.
Pessoalmente, aprecio-o e admiro-o visto de qualquer ângulo – tirante, confesso, o da poesia. Tanto me comovo com o Amor de perdição, como me divirto com a Queda dum anjo, como pasmo da mestria narrativa das Novelas do Minho ou de A Brasileira de Prazins, como passo duas horas entretidas com as suas obras ditas menores, tipo Cavar em ruínas ou Cousas leves e pesadas.
Mas obviamente há sempre um livro de Camilo que, por um motivo ou outro, nos fala mais. Às vezes nem nós sabemos exactamente porquê. O certo é que fala e prende. Acontece-me isso com Maria da Fonte. É como se sabe uma obra simultaneamente de reminiscências históricas e de polémica contra um outro livro, aparecido em 1884, com o título de Apontamentos para a História da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, da autoria do ultramontano Padre Casimiro José Vieira, que a si mesmo se intitulava «defensor das cinco chagas e general das duas províncias do norte» e que – Camilo o cita com ironia – «acaudilhou trinta mil homens e abalou por duas vezes o trono».
O padre é ao mesmo tempo mitómano e megalómano. Reescreve a história ao sabor e à medida da sua auto-estima e do seu ódio aos pedreiros-livres. Claro que Camilo reduz metodicamente a cisco as patacoadas do padre, usando armas que tinha sempre à mão de semear: vigor de raciocínio e de argumentação, segurança nos dados históricos, cultura vasta e vastas leituras, sarcasmo e ironia em doses equivalentes.
É impossível ler o livro sem espirrar aqui e ali frouxos de riso (expressão bem camiliana) à custa das bordoadas com que Camilo deslomba (outra expressão bem camiliana) o padre Casimiro. A técnica usada é bem ao jeito do nosso polemista e deu bons resultados em ocasiões anteriores: reduzir os dislates do adversário a estilhaços e brincar depois com eles, por vezes quase até à crueldade.
A Maria da Fonte termina com um “Pós-escrito” que constitui, a meu ver, uma das páginas mais admiráveis de Camilo. Mantém o tom geral do livro, ora sarcástico, ora irónico, mas tempera-o agora de severidade e indignação. Ainda não li em parte alguma – salvo talvez em A velhice do Padre Eterno, em todo o caso num registo diferente – um requisitório tão enérgico e tão sentido contra um certo clericalismo sectário e de vistas estreitas como acontece ser o do padre Casimiro, que acaba por não distinguir entre política e religião e vaticina que todos os adversários hão-de dar «pulos no inferno». O “Pós-escrito” é uma cúpula primorosa para as duzentas e tal páginas do livro. Termina assim:
«[…]As modernas angústias do homem que chama os deuses à imitação do terror antigo que os criara, são sagradas e tamanhas que é pouco menos de infame afrontar com vitupérios o incrédulo atormentado pelo seu materialismo. É isso a esponja chegada aos lábios desses Cristos que se dilaceram nas presas da sua dúvida para se resgatarem pela morte. Se não pode compadecer-se, padre, seja ao menos egoísta. Arranje o paraíso eterno da sua pessoa, e deixe os ateus, deixe-os padecer e morrer. Não lhes faça pressão crudelíssima nos espinhos da sua coroa, injuriando-os porque eles não podem crer que haja um deus a contemplar, com a impassibilidade de um Nero divino, as suas criaturas estorcidas entre as labaredas do incêndio que Sua Majestade Suprema assoprou sem ter primeiramente consultado a vontade das vítimas. Cale-se, padre, por honra de Deus, se o acredita!»
Pires Cabral

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É muito comum falar-se do génio de Camilo. Não tenho nada contra desde que se considere que o génio não exclui o trabalho intenso, o esforço humano para dar a uma aptidão natural o brilho que a prática contínua do estudo e da arte exigem. Assim é com Camilo, segundo o meu ponto de vista. Quando o próprio autor nos diz que não tem imaginação mas memória – dito em Anátema, cedo na sua vida de prática de escrita – não atribuo a esse dito o reconhecimento exclusivo de uma fidelidade do acontecer (memória do que vi, do que senti, do que experimentei) mas o proveito das leituras que o estimulavam à escrita e podiam – naturalmente deviam – conjugar-se com outras memórias para que o acontecer se tornasse arte. Julgo mesmo que, ao longo da sua infindável obra, Camilo nos alerta para este fenómeno, o que não deixa de ser interessante para quem gosta, como Camilo, de assegurar a autoridade – ou melhor, autenticidade – da composição ficcional.
Vem tudo isto mais ou menos a propósito de alguns dos romances considerados menores em brilho, mas onde o génio do autor se apresenta muito abertamente com as características que se reconhecem como qualidades da sua arte. E tomo como exemplo um dos romances escritos, em folhetins primeiro, enquanto estava preso: As Três Irmãs, 1ª ed., 1862. No Prefácio à 2ª ed.,1866, transcrito na que referencio, de 1974, Camilo declara a abrir: “A leitura dalguns romances de Emílio Souvestre, e a suavidade meditativa que me eles deixaram no ânimo, induziram-me a escrever um arremedo daquele género que tantas simpatias conquistou entre infelizes”. A prevenção “contra” o que se vai ler está feita e por isso pode continuar em clave de autojustificação complacente até à última nota que leve o leitor à necessária simpatia” eu não me descontentei da minha tentativa”. Se atentarmos nos prefácios, notas preliminares e intróitos semelhantes com que Camilo sempre nos brinda sabemos de antemão como corresponder às orientações de leitura que gosta de apresentar. Neste caso o que ressalta é não tanto a história piedosa com que nos brinda mas a espantosa capacidade de jogar com uma invejável arte narrativa quando nos dois primeiros capítulos apresenta escrupulosamente contida as linhas da trama que se segue e naturalmente, logo no primeiro, a íntima justificação de mais um romance: “[…] toda a dor, bem ou mal exprimida, é sacratíssima sempre”. No 2º cap. apresenta os principais protagonistas e, na brevíssima descrição de cada um (sem evitar os diálogos que ajudam è descrição!), o sucesso que lhes estará reservado no resto do romance. São apenas meia dúzia de folhas mas é quanto basta para se apreciar a poderosa arte de Camilo a que nem sempre damos atenção.
Veja-se como Camilo nos introduz na história para nos apresentar as três irmãs, filhas de Joaquim Luís da Silva “um negociante de honrada fama e créditos de abastado. Quando a invasão dos franceses, abroquelada pelo terror e pelos fantasmas ensaguentados que a precediam, infestou o Porto, o negociante fugiu com sua mulher e três meninas, a mais velha das quais contava dezessete. […] As meninas imediatas em menos idade de quatro e três anos eram Maria e Eulália. Eulália de treze anos, e mais formosa. Maria de catorze, e mais angélica de meiguice. Jerónima era a menos bela, e mais varonil no género de lavor a que se dava em casa, entendendo no tráfico, na labutação, e na contabilidade”. A história de cada uma e dos eleitos do seu coração é só o desenvolvimento verosímil desta apresentação. Vale a pena apreciar como Camilo consegue em cerca de 300 páginas mais um romance que não desmerece a sua obra e a que no prefácio já apusera este seu juízo: “… se atendermos a que primeiro foi publicado em folhetins no Comércio do Porto, jornal lido por milhares de indivíduos, que se dispensam de reler em livro os romances já editados, não há razão para desanimarem os escritores propensos a escreverem neste género chão, e, até certo ponto, religioso, já que não ouso dizer filosófico”.
Maria de Lourdes A. Ferraz

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Camilo Castelo Branco publica as oito novelas que integram esta obra ímpar entre 1875 e 1877, em doze pequenos fascículos mensais, pela seguinte ordem: “Gracejos que matam”, “O comendador”, “O cego de Landim”, “A morgada de Romariz”, “O filho natural”, “Maria Moisés”, “O degredado” e “A viúva do enforcado”. Por exemplo, comece o leitor por ler a modelar “Maria Moisés”, e ficará convencido da inquestionável mestria da arte de narrar deste arguto analista de almas e poderoso contador de histórias.
Quando Camilo escreve estes textos é um escritor amadurecido, dominando plenamente as suas faculdades de observador e de criador de universos ficcionais. Estas novelas ou narrativas breves centram-se em protagonistas bem delineados, pelo que não lhes é estranha a qualificação camiliana de “biografias enoveladas”.
Trata-se de um conjunto de novelas escritas no Minho (a partir do epicentro de S. Miguel de Seide) e sobre o Minho, sem bucolismos idílicos ou visões pitorescas. Camilo opta antes por temperar enredos mais ou menos passionais com um enorme poder de observação da realidade e de acutilante sentido crítico. Estamos perante um escritor em evolução estética, movido cada vez mais por uma estética da naturalidade.
Tal como noutras criações narrativas, os fios da matéria diegética destas cativantes histórias entrelaçam admiravelmente o poder da imaginação e a capacidade de observação. Distanciando-se dos excessos românticos ou ultra-românticos, a pena de Camilo privilegia histórias centradas na actualidade, em detrimento de narrativas históricas. Diversos narradores-testemunha recriam aqui, com enorme sabedoria técnica e cativante verosimilhança, enredos bem cerzidos e com uma construída aura de verdade.
A própria organização das histórias, urdidas com notável variedade de ordenações e ritmos narrativos, constitui um elemento fulcral para a sedução do leitor de todas as épocas. Mesmo quando abarca algumas décadas, a unidade narrativa é assegurada pelo percurso biográfico de uma personagem central, verdadeiro eixo da história narrada.
A manifesta lição ao nível da língua e do estilo, plasmada na modelar forma desta prosa, constitui outra das qualidades desta obra camiliana. As preocupações vernáculas, a exploração das potencialidades expressivas da língua portuguesa, as constantes reflexões metalinguísticas e metanarrativas, a excepcional fluência do diálogo, a capacidade de interpelação do leitor, a presença de um humor inteligente e corrosivo – são apenas outros méritos que também cativam o leitor de sempre.
Retrato impiedoso do seu Portugal contemporâneo, Novelas do Minho é ainda um universo de soberba demonstração das capacidades de análise psicológica de Camilo. Mesmo descrendo das capacidades edificantes da literatura, os narradores camilianos destas histórias notáveis questionam princípios políticos e valores ético, confrontando a moral cristã e o materialismo reinante.
Assim sendo, não surpreende o sucesso editorial desta obra, visível em sucessivas edições e na recepção crítica; objecto de traduções e adaptações para televisão; e ainda a sua inclusão em programas escolares. Por tudo isto que aqui se sugere e por outras razões, Novelas do Minho é seguramente uma das obras-primas da criação ficcional camiliana, um daqueles títulos que têm forçosamente de figurar numa bibliografia selectiva do infindável e intemporal Camilo.
J. Cândido Oliveira Martins

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A 1 de Outubro de 1860, contando 35 anos, entrava Camilo na Cadeia da Relação do Porto, no culminar de uma ‘via dolorosa’ iniciada pelo processo de adultério movido por Manuel Pinheiro Alves. Entre laivos de um certo exibicionismo romântico e na esperança de alguma atenuante, fora a sua entrega voluntária.
A sua estadia na Relação durou até 16 de Outubro de 1861, data da sentença de absolvição. Não é fácil, porém, conjecturar os sentimentos que o invadiram durante esse período, assim como o não é também no momento em que respirou de novo a liberdade, pois, pela sua irreverência, nunca conseguira captar e jamais lograra predispor favor ou simpatia da sociedade. O ambiente que o privava da mulher amada, cerrava-lhe a alma em espessa névoa de incerteza, que só a leitura e a escrita atenuavam.
Contudo, nem as visitas, nem as saídas, nem sequer o tempo passado a ler e a escrever, o impediram de observar atentamente os dramas que pejavam aquele antro de misérias. Movido por uma profunda sensibilidade e por uma apaixonada e sincera empatia com o sofrimento dos companheiros de cárcere, numa verdadeira fraternidade pela desgraça enformada por uma imensa bagagem literária, viveu Camilo um dos monumentos mais tensos da sua produção.
De facto, era este incessante ímpeto criativo, ficcional e também jornalístico, que, embora a uma luz coada por ferros, o revigorava e do qual nasceram, numa pulsão tantas vezes de apurada ironia, entre muitos outros, o Amor de Perdição, alguns dos Doze casamentos felizes e estas Memórias do Cárcere.
O certo é que em função da sua prodigiosa bagagem de leituras, do seu conhecimento da psicologia do leitor, do conteúdo dramático das ‘fábulas’ e da sua veemência passional, as Memórias apresentam-se como uma verdadeira peça teatral, cujo palco é o Cárcere, e onde, na sucessão dos vários actos, desfila o estado da sociedade do século XIX, num riquíssimo e variado conjunto de personagens e tipos arrancados à vida, com as suas marcas, as suas taras ou as suas sensibilidades, não raro singularmente mescladas com o crime, que pensam, agem e falam com viva espontaneidade ou dão lugar a intervenções do autor-narrador expressas numa linguagem de matizes inequivocamente românticos.
Por todas estas razões, esta obra representa, na obra de Camilo, para além do seu valor estético próprio, um adestramento do maior alcance na construção das personagens e no apuramento das virtualidades estilísticas que vão caracterizar toda a sua obra.
Aníbal Pinto de Castro
Director da Casa de Camilo

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