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Posts Tagged ‘António Mega Ferreira’

“Não sei porque é que havia de preferir Camilo a Eça. Mas arrisco que talvez seja porque o coração e a cabeça me pedem, nas alturas decisivas, o desafio da incerteza e o calor insuportável das paixões, em vez do confortável pirronismo da crítica de luneta.”

António Mega Ferreira, In Expresso, 2 de junho de 1990

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«Há muitos anos já que, na minha biblioteca, os romances de Eça dormem, cuidadosamente arrumados. As obras de Camilo, as múltiplas edições que fui adquirindo ao longo da vida, essas acumulam-se, numa desordem que denuncia utilização constante. Eu não sei porque é que havia de preferir Camilo a Eça. Mas arrisco que talvez seja porque o coração e a cabeça me pedem, nas alturas decisivas, o desafio da incerteza e o calor insuportável das paixões, em vez do confortável pirronismo da crítica da luneta.
Sei pouco da vida, muito menos que Camilo, que escreveu sobre nós até mesmo aquilo que nunca seremos capazes de viver. Mas reconheço nele os traços de uma tragédia iminente que nos toca a todos, quando, por acaso, aquilo a que chamamos destino nos conduz ao limiar do desespero.
O gesto com que Camilo pôs termo à vida […] marca simbolicamente o único momento de acordo entre a sua alma e o seu corpo. Aquietam-se ambos, por uma vez, e para sempre.
Deixou-nos o encargo de sofrer – ou, pelo menos, de percebermos, com a estúpida lucidez que só a literatura nos pode dar, que a vida, quando dói, dói mais que a alegria.
(In «A sombra de Camilo». Expresso. 02.Jun.1990)

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