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Posts Tagged ‘Boletim da Casa de Camilo’

«A pátria de Camilo não é Portugal – a sua pátria verdadeira é o Norte. E poucas terras como Vila Real poderão reivindicar para si o título de sagrado lugar camiliano. Para aqui veio, menino, e moço, e órfão, confiado aos incertos cuidados maternais da tia Rita Emília, irmã daquele Simão Botelho que Camilo salvou do esquecimento eterno, fazendo-o protagonista de uma tragédia – uma das raras tragédias que ainda se escreveu em Portugal. Aqui nasceram o pai e o avô do escritor e também o que viria a ser cunhado – Francisco José de Azevedo, irmão do bom padre António, primeiro mestre de Camilo em letras e virtude. Aqui revelou ele, em verdes anos, feições dominantes do seu carácter, rebelde e pugnaz. Aqui lhe nasceu uma filha, fruto dos amores à margem da lei dos homens e da lei de Deus. Aqui se revelou a sua veia literária como articulista e epistológrafo ao serviço de namorados inábeis para exprimir os seus sentimentos, Aqui foi vago funcionário e dramaturgo representado.

Falar de Camilo em Vila Real é, pois, grave responsabilidade, porque é falar de um santo de casa que faz o milagre de nos reunir ao redor do seu nome e da sua sombra – sombra tutelar, verdadeiro genius loci que invocamos propiciatoriamente para os nossos trabalhos.»

João Bigotte Chorão, In Boletim da Casa de Camilo

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Dizer que Camilo é uma figura complexa e extremamente interessante é um lugar-comum. Mas, geralmente, atrai-nos o seu lado «diurno», do escritor sentimental, irónico ou, mesmo, sarcástico, que entrelaça o sorriso e as lágrimas, do polemista irreverente, temível, etc.. Mas na sombra, vai ficando uma outra faceta que me parece também fascinante: o seu lado «noturno», o seu quase «diabolismo» …
Mais do que um homem romântico, Camilo foi um autor romântico: são indiscutíveis o seu gosto pelo passional e pela encenação, o seu conhecimento profundo dos códigos românticos e o domínio da técnica romanesca. Nas suas novelas, o narrador é, geralmente, autoral, dominador, mais ou menos irónico…
No fundo, habituou-se a uma atitude manipuladora.
(In Boletim da Casa de Camilo)

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Camilo Castelo Branco
é, sem dúvida, um dos vultos mais singulares da nossa galeria romântica. Tornou-se mesmo a personagem romântica típica, modelo sugestivo das loucuras e desgraças desse período.
Atingido pelos mais duros golpes que podem agitar e ferir um coração de homem; lançado em luta impiedosa contra um destino adverso; vítima do seu desequilíbrio, que nunca lhe permitiu instalar-se num bem-estar duradoiro; abalado por um temperamento sem freios, que exigia sempre novas sensações, novas dores, novos combates – a vocação literária presidiu sempre, no entanto, aos seus tumultos íntimos e pode até dizer-se que delas se alimentou. A sua obra, de facto, modela-se num sofrimento vivido, saboreado, transformado em expressão verbal. Menos infeliz – talvez Camilo não tivesse sido o escritor de génio que fulgura, com estranho prestígio, no olimpo do nosso romantismo.
(In Boletim da Casa de Camilo)

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