Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘Cadeia da Relação do Porto’

Exposição da responsabilidade da Casa de Camilo, inaugurada no próximo dia 24 de março, pelas 16 horas, no Centro Português de Fotografia, edifício da
Ex-Cadeia da Relação do Porto. Patente até ao dia 24 de junho de 2012.


Centro Português de Fotografia

Read Full Post »

O ano de 1862 é, sem dúvida, marcante na literatura camiliana, na medida em que regista não somente a escrita de ‘Amor de Perdição’ como também a edição de ‘Memórias do Cárcere’, texto que exprime a experiência de Camilo Castelo Branco, preso por adultério, na Cadeia da Relação do Porto.

150 anos depois, a Câmara Municipal de Famalicão e a Casa de Camilo organizam, no âmbito da Capital Europeia da Cultura Guimarães 2012, Oficinas de Leitura, de Escrita e de Cinema com os reclusos do estabelecimento prisional de Guimarães; para que estes possam também, à luz de Camilo, aprender a exprimir, através da criação artística, literária e audiovisual, os seus sentimentos, experiências e memórias.
Guimarães2012

Read Full Post »


O Rei apeara inopinadamente à porta da cadeia.
O carcereiro era um alferes dos veteranos…
… D. Pedro V correu-o com os olhos, e disse:
– Conduza-me às enxovias.
Abriram-se os alçapões dos calabouços…
Sua Majestade desceu rapidamente, como se pisasse os tapetes das marmóreas escadarias dos régios paços. À sua chegada uns presos petrificaram, outros ajoelharam, e alguns, voz em grita, pediam a liberdade…


… Passou Sua Majestade à enfermaria dos presos, e à das presas, em seguida. Na extrema desta há uma porta que se abre para o quarto de uma senhora, que ali estava presa.
– Que é ali dentro?
– Saberá Vossa Majestade – disse o carcereiro – que é o quarto da senhora [D. Ana Plácido].
O rei entrou, e a senhora foi chamada do corredor aonde tinha a seu asilo de trabalho.
Com a senhora veio um menino nos braços de sua ama.
D. Pedro V cumprimentou a presa, perguntando-lhe o tempo de sua prisão. Reparou no menino, e acarinhou-o, perguntando-lhe o nome e a idade. A mãe respondeu pela criancinha, e o rei deteve-se a contemplar a infeliz. Ao lado do monarca compungido estava o marquês de Loulé, pensando, porventura, que naquele dia tinha de banquetear-se no palácio de ima irmã daquela encarcerada.
Saiu Sua Majestade e, ao descer as escadas, proferiu as palavras iniciais deste capítulo:
Isto precisa de ser completamente arrasado.
(In Memórias do Cárcere)

Read Full Post »

Foi no Tribunal da Relação do Porto que Camilo Castelo Branco escreveu em duas semanas dias uma obra prima da literatura universal – o romance “Amor de Perdição”. Vale a pena conhecer os bastidores desta história…

1.

Casa da Suplicação

Este edifício alberga hoje o Centro Português de Fotografia e um importante museu de máquinas fotográficas . Fundado por Filipe I (II de Espanha), nas cortes de Tomar de 1583, correspondendo a uma velha aspiração dos portuenses e das gentes do Norte. D. João I havia criado a Casa da Suplicação que funcionou como o mais alto Tribunal até que, em 1834, foi substituído pelo Supremo Tribunal de Justiça. O mais alto magistrado deste pretório era designado por Regedor das Justiças e devia ter qualidades que, ainda hoje podem servir de padrão aos juízes. Estipulavam as Ordenações que, relativamente ao Regedor, «deve procurar-se que seja um homem fidalgo, de limpo sangue, de sã consciência, prudente e de muita autoridade, e letrado se for possível; e sobretudo tão inteiro que sem respeito de amor, ódio ou perturbação outra do ânimo possa a todos guardar justiça igualmente. E assim deve ser abastado de bens temporais, que sua particular necessidade não seja causa de em alguma cousa perverter a inteireza e constância com que deve servir e assim deve temperar a severidade que seu cargo pede, com paciência e brandura no ouvir as partes, que os homens de baixo estado e pessoas miseráveis achem nele fácil e gracioso acolhimento, com que sem pejo o vejam e lhe requeiram sua justiça, para que suas causas se não percam ao desamparo, mas hajam bom e breve despacho».

2.

“Arrasar tudo isto”

Desde o século XV os reis eram pressionados no sentido de aumentarem o número de tribunais de recurso. O problema foi discutido nas cortes de 1472-73 (D. João II). As razões postas baseavam-se na insuficiência das duas casas de justiça que havia, especialmente insuficiência territorial, pois as duas que existem «ficam tão remotas dos extremos do reino que se um homem cai em cadeia ou lhe vem demanda, logo se julga perdido, porque hão-se passar dois, três, quatro anos, e mais, antes que os feitos tenham fim; e, se é preso por delito grave, e tem a justiça por parte, jaz na prisão até fugir dela ou morrer aí» (Gama Barros). O Rei não acedeu, preferindo determinar que a Casa da Suplicação se tornasse itinerante. Em vez disso, concedia «alçada» a quem entendia para julgar «in loco», sem apelo nem agravo, facto que, manifestamente, desagradava. Filipe I, ciente de que tornava uma medida de agrado geral para a população nortenha, acedeu às justas solicitações dos portuenses.

A Cadeia da Relação, justificando o nome, serviu de cárcere até à inauguração da actual cadeia de Custóias, em 1974, após a Revolução de Abril. Os presos eram distribuídos pelos diversos pisos, conforme a sua posição social, um pouco à guisa do inferno de Dante. Nos andares de cima, os mais categorizados, ali se situando os catorze “quartos de malta” (celas individuais). Nos “quintos dos infernos”, no rés-do-chão, os mais pobres, a ralé, onde os detidos se amontoavam em amplos salões com piso de pedra, as enxovias, com catres imundos em redor, os quais, durante o dia, eram levantados por meio de dobradiças, ficando empinados junto às paredes. Essas celas comuns eram conhecidas pelos nomes de Santo António e de Santa Ana, as destinadas a homens, de Santa Teresa para mulheres, de Santa Rita para menores, de S. Victor e o Segredo para castigos. Havia uma oficina denominada Senhor de Matosinhos. A imundice das enxovias tinha o cimento dos anos e das sucessivas gerações de presos. O cheiro das latrinas era nauseabundo. O ambiente soturno e triste, o que levou a exclamar, após uma visita, em 1861: “É preciso arrasar tudo isto!”.

3.

Zé do Telhado

Nos seus soturnos ergástulos albergou muitos presos, alguns célebres: José do Telhado, Camilo Castelo Branco (cela n.º 12). Nesta mesma cela esteve preso o desembargador Gravito, antes de ser enforcado, juntamente com mais nove liberais, em forca instalada na actual Praça da Liberdade, por decisão dos miguelistas. Mais tarde, esteve ali também detido o banqueiro Roriz. Obras recentes preservaram-na. Ana Plácido, então amante de Camilo, esteve instalada num corredor porque não havia celas para senhoras de sociedade. O Duque de Terceira permaneceu, durante algum tempo, na cela n.º 8. O médico que envenenou familiares, Urbino de Freitas, ocupou a n.º 13. João Chagas, por via do seu republicanismo, estava detido nesta cadeia quando eclodiu a abortada revolta de 31 de Janeiro. Os processos relativos a Camilo, Urbino de Feitas e Zé do Telhado, encontram-se no pequeno museu judiciário instalado no Palácio da Justiça do Porto, onde também funciona, actualmente, o Tribunal da Relação, que já tinha saído da Cadeia para se albergar na Rua Formosa, onde, depois, funcionou o Arquivo de Identificação e, agora, está a sede da Liga dos Combatentes.

É interessante supor Camilo Castelo Branco, de imaginação flamejante, a resmungar na sua cela n.º 12, como leão enjaulado, por ter cometido crime que, agora, já nem o é: relações sexuais com mulher casada. Só o adultério da mulher era punido. O homem casado podia impunemente relacionar-se com mulher que não fosse casada. Sendo-o, como era Ana Plácido, então poderia ser punido, com pena grave, extensível a ambos. Aguardaram, durante mais de um ano, presos o julgamento em que o júri não considerou provados os factos e, por isso, foi proferida sentença absolutória. No cárcere, Camilo continuou a escrever e, no silêncio do último piso, onde se situava a cela com janela para nascente – é a que se situa mesmo por baixo do ângulo esquerdo, de quem está virado para ele, do frontão -, o que mais o irritava era o barulhar ritmado e invariável dos passos do carcereiro sobre as tábuas rangentes do sobrado. De noite, nas longas lucubrações, convenceu-se de que o marido enganado, Pinheiro Alves, teria subornado um outro preso para o matar. Confidenciou esse temor a outro preso que também ali se mantinha, José do Telhado. Este sossegou-o, dizendo-lhe: ” Esteja descansado. Se aqui alguém tentasse contra a sua vida, três dias e três noites não chegariam para enterrar os mortos”.

Talvez a aura romântica que se havia de formar à volta do célebre salteador, emergisse também do reconhecimento do escritor pela protecção dispensada. Camilo encerrou o seu livro “Memórias do Cárcere”, desabafando: “Fecham-se as memórias. Eu devia ter dito porque estive preso um ano e dezasseis dias. Não disse, nem digo, porque verdadeiramente ainda não sei porque foi.”

Claro que sabia. O que poderia não entender era o rigor dos preconceitos vitorianos da época, aos quais, afinal, surpreendentemente, o Tribunal se não vergou.

Fonte: Guilherme Pereira

Read Full Post »

Entre as acções promovidas na Área de Exposições Temporárias do Museu de Vila Real (Museu de Arqueologia e Numismática de Vila Real) conta-se um ciclo de conferências quinzenais (mensais nos anos 2001 e 2004) que se designou por Histórias ao Café e que decorreu entre 3 de Outubro de 1997 e 27 de Dezembro de 2005. Este ciclo procurou “valorizar alguns dos mais importantes aspectos da história local, usando geralmente certos documentos (em parte reproduzidos neste livro) como pretexto museológico; evocar e recrear pela regularidade da sua realização as antigas tertúlias de tanta tradição nas terras da província no séc. XlX e princípio do séc. XX, em particular em Vila Real”[…]; “sensibilizar os participantes para as questões do património lato sensu; e contribuir para o esforço do sentimento de pertença à comunidade”.
“Para a apresentação dos temas convidaram-se personalidades com diferentes formações, que se responsabilizaram pela investigação (na sua grande maioria acompanhados pelo coordenador do projecto, Elísio Amaral Neves) e comunicação, a que se sucedia, no dia programado, um espaço de debate, por vezes bem animado, que possibilitou uma melhor compreensão da identidade vila-realense da comunidade ao longo dos tempos”.
O livro agora disponibilizado on-line reúne “os textos dos 182 temas publicados nas 162 fichas distribuídas nos dias das sessões (coleccionáveis e arquiváveis em parte própria) e justifica-se, entre tantas outras razões, como forma de reconhecer o inequívoco entusiasmo que atingiu todos os conferencistas, muitos deles responsáveis por mais de uma comunicação, cujo conteúdo, à medida que a iniciativa se foi consolidando e progredindo no tempo, se foi tornando igualmente, cada vez mais exigente e completo.”
Por ser uma das Terras com maior tradição camiliana, este facto não deixou de ter expressão concreta nos temas abordados, podendo o leitor encontrar neste livro informação directa e indirectamente ligada à vida e à obra de Camilo Castelo Branco, designadamente:
1ª Edição do “Agostinho de Ceuta, p.33;
O Mausuléu de Camilo, p. 90;
António Lopes Mendes, p. 161;
Manuel Duarte de Almeida, poeta vila-realense, 164;
Camilo e a Taça, p. 302;
José Cabral Teixeira de Morais, p. 331;
Camilo Castelo Branco e a Cadeia da Relação, p. 365;
Camilo e Vila Real, p. 429.

VILA REAL: HISTÓRIAS AO CAFÉ” – PDF

Read Full Post »


13 de Março de 2009 foi o dia escolhido pela Universidade Sénior de Famalicão para a realização de uma viagem de estudo ao Porto, a fim de aprofundar os seus conhecimentos sobre a vida e obra de Camilo Castelo Branco nessa cidade.
Camilo nasceu em Lisboa no dia 16/03/1825 e faleceu em S. Miguel de Seide em 01/06/1890, tendo deixado cerca de centena e meia de obras escritas, sendo que, muitas delas, se referem ao Porto.
Famalicão ainda mal tinha iniciado o seu labor diário – eram 08H50 – e a comitiva constituída por sete dezenas de alunos da nossa universidade, professores, funcionária e o Dr. José Manuel Oliveira, Técnico Superior do Centro de Estudos Camilianos de V. N. de Famalicão, partiam em busca dessa cultura.
Já muito perto das 10H00, o grupo dava entrada no antigo edifício da Cadeia e Tribunal da Relação do Porto onde Camilo Castelo Branco esteve preso.
Este edifício, hoje recuperado e alterado, funciona como museu e, portanto, já não é utilizado nas suas antigas funções de tribunal e cadeia. No entanto, mantém a sua traça e facilmente se nota, principalmente nas grades de ferro, a sua função de cadeia, com suas enxovias no primeiro piso, aposentos no segundo e celas individuais no terceiro.
Foi no terceiro piso que Camilo esteve preso numa cela que dava, nas traseiras, para a Igreja do Bonfim.
No segundo piso, visitámos a sala de audiências do Tribunal da Relação do Porto; enorme, de pé direito a rondar os dez metros, e sumptuosa.
Uma fotografia de todo o grupo à entrada do edifício encerrou a visita, sempre bem comentada pela Dr.ª Sónia, nossa guia no edifício e complementada pelo Dr. Oliveira em tudo que se referia ao escritor.
Daí fomos a pé, cerca de 300 metros, até à Livraria Lello & Irmão, onde chegamos por voltas das 11H45.
À entrada fomos recebidos e cumprimentados pela Senhora D. Fernanda Costa, Presidente da USF, acompanhada pelo marido, o senhor arquitecto Armindo Costa, Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, que nos acompanharam na visita breve a esta livraria, muito ligada a Camilo Castelo Branco.
Terminada a visita, o grupo dirigiu-se, nos dois autocarros que o trouxe de Famalicão, à Fundação de Serralves, onde, no seu restaurante, lhe foi servido o almoço que se prolongou até às 15H00 num convívio ameno e agradável.
Retomado o roteiro estabelecido percorremos, lentamente, toda a orla costeira desde o Castelo do Queijo até à ponte de D.Luís, que atravessamos para o margem esquerda do rio Douro, parando em frente às caves do Vinho do Porto da Sandeman.
Durante este trajecto o Dr. Oliveira foi explicando que Camilo também o percorria aquando da sua prisão por virtude de uma autorização especial que lhe havia sido concedida e, tudo indica, foi aqui, na Ribeira, que se inspirou para o final de seu “Amor de Perdição”, “pondo” a Teresa no convento de Monchique de onde tinha uma visão privilegiada da saída do barco que levaria o amado Simão para a Índia.
Mais uma foto do grupo, de costas para o Porto, e, às 17H00, iniciou-se o regresso à nossa cidade de Vila Nova de Famalicão onde, sem “azares” do dia treze, chegámos bem.
Abílio Ferreira Alves
Aluno da USF

Read Full Post »

« Newer Posts