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Posts Tagged ‘Casa-Museu de Camilo’

«Há muitos anos já que, na minha biblioteca, os romances de Eça dormem, cuidadosamente arrumados. As obras de Camilo, as múltiplas edições que fui adquirindo ao longo da vida, essas acumulam-se, numa desordem que denuncia utilização constante. Eu não sei porque é que havia de preferir Camilo a Eça. Mas arrisco que talvez seja porque o coração e a cabeça me pedem, nas alturas decisivas, o desafio da incerteza e o calor insuportável das paixões, em vez do confortável pirronismo da crítica da luneta.
Sei pouco da vida, muito menos que Camilo, que escreveu sobre nós até mesmo aquilo que nunca seremos capazes de viver. Mas reconheço nele os traços de uma tragédia iminente que nos toca a todos, quando, por acaso, aquilo a que chamamos destino nos conduz ao limiar do desespero.
O gesto com que Camilo pôs termo à vida […] marca simbolicamente o único momento de acordo entre a sua alma e o seu corpo. Aquietam-se ambos, por uma vez, e para sempre.
Deixou-nos o encargo de sofrer – ou, pelo menos, de percebermos, com a estúpida lucidez que só a literatura nos pode dar, que a vida, quando dói, dói mais que a alegria.
(In «A sombra de Camilo». Expresso. 02.Jun.1990)

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«O coração não diz nada. O coração é um vaso onde passa o sangue. O coração que não é isto, e simplesmente isto, é um tolo».
(In O romance de um homem rico)

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O filme «Mistérios de Lisboa» de Raúl Ruiz, realizado a partir da obra homónima de Camilo Castelo Branco, terá a sua antestreia no auditório da Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide (Vila Nova de Famalicão), no próximo dia 15 de Outubro, pelas 21h00, e contará com a presença de alguns dos principais actores.

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Toronto foi a primeira cidade a encantar-se com Mistérios de Lisboa. Depois da estreia num dos mais influentes festivais de cinema do mundo, o filme de Raoul Ruiz, produzido por Paulo Branco, segue para uma maratona de festivais que tem paragens marcadas para mostras sonantes no mundo do cinema, como San Sebástien, em que está seleccionado para a competição, e ainda New York e São Paulo.

Raoul Ruiz, um chileno habituado a Portugal e encantado com a sua cultura, realiza a adaptação difícil dos Mistérios de Lisboa, de Camilo Castelo Branco. O romance de 1854 é uma complexa composição de várias narrativas que têm como único fio condutor a personagem do Padre Dinis, interpretado por Adriano Luz.

Mistérios de Lisboa é, sem dúvida, uma das maiores produções portuguesas dos últimos anos. A vários níveis. A sua duração ultrapassa as 4 horas de duração, tem de orçamento 2,5 milhões de euros, e tem encantado novos públicos, novos rumos para o cinema português.

As primeiras reacções são verdadeiramente positivas, e houve já quem tivesse usado o termo máximo na sua apreciação ao filme: obra-prima. Uma obra-prima portuguesa? É bilhete obrigatório para um cinéfilo português.

Estreia mundial (Toronto): 12 de Setembro

Estreia Portugal: 21 de Outubro

Realização: Raoul Ruiz

Intérpretes: Adriano Luz, Maria João Bastos, Ricardo Pereira, José Afonso Pimentel, Léa Seydoux, Melvil Poupaud, Margarida Vila-Nova, Catarina Wallenstein, Filipe Vargas, Miguel Monteiro, São José Correia, Rui Morrison

Fonte: Blogue CineGlam7

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“Eu estou aqui a falar, mas não sabem quem eu sou. Eu sou o Manoel de Oliveira”: a apresentação estava feita perante uma plateia lotada que escolheu passar a sexta-feira à noite na companhia do cineasta. O pretexto era o regresso de Manoel de Oliveira à Casa de Camilo, em Vila Nova de Famalicão, quase vinte anos depois da estreia do filme “O Dia do Desespero”, que relata a história verídica dos últimos anos de vida do romancista Camilo Castelo Branco. O Centro de Estudos Camilianos emprestou o seu auditório para rever “O Dia do Desespero”, com a promessa de ouvir o mestre recordar e rever os pormenores das filmagens – e os famalicenses não faltaram à chamada.

Em passo apressado, o realizador que em Dezembro cumprirá 102 anos, entrou numa sala cheia. À porta, quem não conseguiu entrar espreitava, tentava vislumbrar a silhueta do mestre. E este fez ecoar os mais sinceros agradecimentos e apresentou-se, poupando palavras ao seu interlocutor, que tinha acabado de perguntar: “Como apresentar quem não precisa de apresentações?”

Manoel de Oliveira descobriu o fascínio por Camilo Castelo Branco, revelado tanto em “O Dia do Desespero”, como nas suas obras “Amor de Perdição” e “Francisca”, porque, tendo sido “um escritor excepcional” é impossível não o descobrir. “Quem é que não o descobriu? O fascínio é evidente”, atirou num tom bem-humorado que manteve, tanto na conversa prévia à exibição do filme, como na demorada sessão de perguntas posterior, levando a plateia inúmeras vezes às gargalhadas.

Sobre os pormenores da rodagem de “O Dia do Desespero”, filmado em 1991 e projectado no Centro de Estudos Camilianos de Vila Nova de Famalicão, o realizador reconheceu não se lembrar de histórias particulares, nem daquela em que terá pedido folhas, importadas da Bélgica, para uma acácia despida. O tom bem-disposto foi pontuado por momentos sérios, especialmente quando o tema era Camilo Castelo Branco. “A vida dele foi funesta”, assegurou o realizador, que vê na figura do escritor o peso de uma “perseguição” de que foi alvo desde criança.

O homem que já foi “muita coisa”, mas agora é só realizador, intercalou o tema camiliano com outro: a morte. “A morte igualiza toda a gente. Ricos e pobres”, afirmou, debruçando-se depois perante a relação que se estabelece entre o seu oposto, a vida, e o cinema.

Para Manoel de Oliveira, “a própria vida não tem nada de original”. “Foi o viver que me ajudou a fazer cinema e não o contrário. O cinema copia o que o Criador cria, portanto não me podem chamar criado”, resumiu.

Apesar de não ser presença habitual nas salas de cinema, o cineasta que começou quando o cinema ainda era mudo – “Fiz cinema mudo, porque não havia som”, disse –, não se escusou a comentar a nova revolução tecnológica pela qual a sétima arte está a atravessar. “Acho que as três dimensões são de mais, porque exageram a própria vida. Por mais voltas que dêem à técnica, nunca a técnica substitui os seres humanos”, defendeu o realizador mais velho do mundo ainda em actividade.

Fonte: AGÊNCIA LUSA, 25-09-2010

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«[…] Eça de Queiroz, grande talento, mas apenas grande talento e jamais criador. E daí a grandeza de Camilo, sempre ele, sem lições de ninguém, descobridor, nascente e nunca torneira de água encanada, servido pelo essencial poder de expressão que lhe provinha de saber português, saber da arte de escrever, sem a qual: nicles! A grandeza de Camilo estava onde só podia estar, nele próprio, em originariamente sentir, no poder do coração e dos nervos. E à parte de qualquer escola: em todas e em nenhuma, como todos os grandes de todos os tempos. Aí o segredo da abelha…»
(In «Nó Cego», de Tomaz de Figueiredo)

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Manoel d’ Oliveira é o próximo convidado da Sessão “Um Livro, Um Filme”, actividade promovida pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, através da Casa de Camilo, e que decorrerá no auditório do Centro de Estudos, em S. Miguel de Seide, no dia 24 de Setembro de 2010, pelas 21h30.
O cineasta escolheu para ponto de partida dos seus comentários a película “O Dia do Desespero”, por si realizado e integralmente rodado na Casa de Camilo – Museu, moradia onde o romancista passou grande parte da sua via e pôs termo à vida a 1 de Junho de 1890.

Manoel d’ Oliveira tem a idade do cinema. Contando quase cinquenta filmes em pouco menos de oitenta anos de trabalho, tendo acompanhado activamente as principais mutações técnicas e estéticas da criação cinematográfica (a passagem do mudo ao sonoro, do preto e branco à cor ou do registo fotográfico ao vídeo), o percurso de Manoel d’ Oliveira pode, na sua singularidade, ser visto como uma síntese da história do cinema. De Douro, Faina Fluvial (1931), o primeiro filme do autor, a Singularidades de uma Rapariga Loura (2009), sua mais recente realização, a obra de Manoel d’ Oliveira concilia alguns dos principais antagonismos que marcaram as querelas cinematográficas ao longo de todo o século XX. Fazendo confluir duas concepções de vanguarda, nela se confrontam uma primeira modernidade, em que a «sétima arte» pretende fundar uma linguagem específica, demarcando-se das outras disciplinas artísticas para se definir como uma «arte pura», e uma segunda modernidade, em que o cinema, deixando de procurar a emancipação na ruptura e reconhecendo a especificidade da sua impureza, se propõe como uma «síntese de todas as artes».
Estas duas orientações efectuam-se, em Oliveira, numa consolidação das relações do cinema com a literatura e com o teatro, mas também com a pintura e com a música, aprofundando as correspondências através da transgressão de categorias, como o documentário e a ficção, da hibridação de modelos narrativos e da recusa tanto do realismo como do naturalismo, em vista de uma objectividade da representação cinematográfica.
(Texto de António Preto)

“O Dia do Desespero” conta a história verídica dos últimos anos do eminente escritor português do século XIX, Camilo Castelo Branco.
Esta evocação baseia-se, fundamentalmente, em algumas das suas cartas. Os textos são, poderemos dizê-lo, o fio condutor da evolução dramática de um homem viril, polémico e romântico que contrastava com o espírito funesto, instável e irresignado.
Camilo afunda-se sem remissão num conflito íntimo, ou melhor, interno, “um drama em gente”, como diria Fernando Pessoa.
Havia de ser a cegueira o impulsor para o Acto final da sua vida. Acto final da sua vida? E o Além-Túmulo?

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