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Posts Tagged ‘Coimbra’


«Faz-me grandes saudades a Coimbra de 45 e 46, em que eu por ali estraguei duas batinas. A Maria Camelo era então uma gentil rapariga a quem eu desfechava frases sentimentais, mas, sobre a matéria, incombustível. Ela foi a salamandra dos vulcões líricos que então flamejavam em Coimbra. Ouvia-se com um sorriso afetuoso, enquanto eu me saturava do fósforo dos seus linguados e das suas tainhas. Volvidos 34 anos, quando meus filhos lá iam cear, ela disse-lhes:

– Seu pai sentou-se aí nessa mesa muitas vezes. Não se esquecera do meu nome. Como isto é triste… quando se sente o coração vivo nas ruínas do corpo!»

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«Do mosteiro de Santa Clara saiu o cadáver sobraçado por aquele homem que relançava à volta de si o olhar sôfrego da posse da mulher morta. Quando ele, vagarosamente, passava no longo dormitório, ouviu o murmúrio das freiras que rezavam salmos no coro. A desgraça faz prodígios de fé, desvarios de crença que seriam galardoados com milagres, se os actos da omnipotência divina se pautassem pela regra do nosso entendimento. Eduardo, aceso em fé ardente, escutava o soturno rumor das vozes, e orava em espírito com os olhos fitos nos do cadáver ainda mal fechados. O infeliz pedia a ressurreição daquela mulher, dobrando os joelhos, e inclinando a face sobre os seus lábios alvacentos, como se esperasse sentir-lhe o hálito dos pulmões revividos.
Instaram os oficiais, que o acompanhavam, para que lhes confiasse o cadáver; mas, não conseguindo desabraçá-lo da morta, ajudaram-no a transportá-la ao quartel de um deles, que se incumbiu do enterro.»
(In Livro de Consolação)

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Saberás, meu caro Negrão, que tenho vivido senão feliz ao menos pacificamente nesta muito linda cidade de Coimbra. Esta terra tem encantos, que só lhos conhece o homem de vida trabalhada de angústias, que vem refocilar-se nesta sacrossanta paz da modulada banza.

Aqui tudo é um requebro saudoso de vida a moyen age. Gosto, e levarei pena quando daqui sair. Não tenho vivido à laia de chinfrim. Vivo na aristocracia intelectual, e estou relacionado com estas sumidades mais ou menos caricatas.

In Carta de Camilo a Manuel Negrão

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O infortúnio e a tendência aventurosa de Camilo Castelo Branco são responsáveis pelos mitos que se desenvolveram à sua volta. O escritor é um dos principais responsáveis (senão o primeiro) por essa aura, não só perante o carácter heterogéneo da sua obra (desde o romance ao ensaio e às memórias), mas também pelo mistério que sempre alimentou sobre a sua própria vida, a começar nas origens, e a continuar no seu espírito aventuroso… Camilo Castelo Branco – Memórias Fotobiográficas (1825-1890) de José Viale Moutinho conduz-nos com mestria no percurso multifacetado de um nossos maiores escritores, mas, mais do que isso, leva-nos ao Portugal profundo do século XIX, que o autor de Amor de Perdição representa e descreve. Figura muitas vezes desconhecida, apesar do sucesso dos seus livros e da paixão que suscita ainda hoje em tantos leitores, Camilo protagonizou uma vida atribulada de romântico que teve a lucidez de se libertar dos constrangimentos de escola que esterilizaram outras promessas. Homem cultíssimo, estudioso exaustivo da história e da sociedade, romancista fecundo — Camilo soube ultrapassar as poderosas baias românticas, indo ao encontro das tendências modernas do seu tempo. A partir de uma personalidade muito forte, o retrato que encontramos de Camilo é a representação de alguém cujo talento resulta de um cadinho onde se misturam ingredientes quase explosivos da sociedade antiga e da sociedade contemporânea, que o escritor procura contraditoriamente compreender.
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