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Posts Tagged ‘entrudo’

 

«Nem Deus, nem dignidade, nem remorsos.
A sua mão, onde quer que pousava, punha nódoas de sangue. A Companhia de Vinhos foi inaugurada no Porto com uma fileira de forcas que trabalharam seis horas, e por um crebro ulular de gemidos de uns açoitados que se tinham amotinado em seguida à bebedeira de terça-feira de entrudo.»

(In Perfil do Marquês de Pombal)

 

 

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Era em 1850, segunda-feira de entrudo. Entrei no Teatro São João, de braço dado com um amigo que dois anos depois pereceu no naufrágio do vapor do Porto. Era José Augusto da Silva Pinto, um dos mais gentis e galãs mancebos daquele tempo.
Trajava ele um riquíssimo costume de Richelieu com o qual ia distinguir-se naquela noite no baile da Assembleia. Eu vestia uma rota e suja casaca de 1810, que alugara por doze vinténs, e completava o disfarce com um chapéu de castor branco que o meu criado me emprestara…
O contraste impressionou as damas. Não sei até se a democracia cristã do duque de Richelieu, prestando o braço a um maltrapido simulacro de mestre-escola com três meses de atraso, fez marejar nos olhos do público as lágrimas duma piedosa compunção. Às dez horas o meu amigo foi para o baile e eu fiquei no teatro embevecido num primor de olhos divinos que há vinte anos me seguem, e me vão precedendo no curto caminho da cova, que breve me há-de remir, mas eu sei que a luz daqueles olhos há-de ir comigo, céu ou inferno dentro, ou como estrela que entre na sua constelação, ou como lágrima luminosa dum anjo caído no abismo. Ó formosos olhos, nunca puderam prantos apagar-vos essa luz imorredoura! Se eu diria naquele noite de segunda-feira de entrudo…
(In Quatro horas inocentes)

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