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Posts Tagged ‘Francisco Tavares Proença Júnior’

Para início das comemorações do centenário da fundação do Museu de Castelo Branco, a Sociedade dos Amigos do Museu Francisco Tavares Proença Júnior decidiu reeditar, e lançar no passado dia 4 do mês de Abril, uma Autobiografia de Camilo que o fundador do Museu dera à estampa em 1905. Sabendo que Francisco Tavares Proença Júnior passou à História como arqueólogo e que a 1ª edição da obra referida é muito pouco conhecida, com legítima curiosidade podemos interrogar-nos sobre o como e o porquê deste livro. E o que encontramos de imediato? Um jovem de 22 anos apaixonado pelo “génio” de Camilo que classifica como o “último e mais brilhante artista da língua portuguesa”. Nada de surpreendente no início do sec. XX, em Coimbra, onde estudantes tomavam os seus escritores preferidos como estandartes de querelas juvenis. O estudante em causa estudava, demasiado desinteressadamente, Direito, que frequentava por imposição paterna, lamentando ao mesmo tempo, não poder dedicar-se à Filosofia ou às Letras. Nada de muito extraordinário, também. O que aqui se torna surpreendente é o facto de o jovem estudante, ao justificar a coordenação e anotação de uma autobiografia alheia, demonstrar o pleno conhecimento da sempre infindável obra de Camilo e ao mesmo tempo revelar um trabalho de paciência e dedicação que anunciavam já o promissor arqueólogo, pode bem dizer-se. Com efeito, sem qualquer presunção ou atrevimento, reconhece apenas que “ao percorrermos a sua obra colossal, encontramos, a cada passo, farrapos da sua vida espalhados pelas suas páginas indeléveis.” E continua no mesmo prefácio explicativo da edição: “Reunir todos esses fragmentos e publicá-los, não por uma forma indiferente, mas em harmonia com a sequência lógica das diversas fases da vida de Camilo, eis a minha ideia e o meu fim.” E é o que procura fazer “quasi convencido de que ninguém poderá chegar a dizer a propósito da sua vida tanto como ele próprio disse”. Surpreendente não só pelo motivo invocado – homenagear o escritor em jornada a S. Miguel de Seide – mas surpreendente sobretudo pela demora, minúcia, critério de selecção e notas que a simples homenagem terá exigido. O equilíbrio conseguido na selacção de passos onde descrição, narração e caracterização de protagonistas trazem sempre a marca indelével do humor, do sarcasmo e do trágico Camiliano não pode ter sido o resultado de uma ocupação de meses ou sequer um arroubo de apaixonado, mas foi certamente um trabalho de anos de uma curiosidade e dedicação constantes. Pode bem acrescentar-se que a sobriedade das 70 notas que constituem a segunda parte da obra são, só por si, comoventes, no respeito pela reconstituição de uma vida que se não foi assim vivida, assim foi criada ou desejada, como já foi dito, em espaços diversos pelo Prof. Anibal Pinto de Castro. Isso mesmo aparece reafirmado nas “Palavras Prévias” da Dr.ª Benedicta Duque Vieira que em texto preliminar, juntamente com uma Introdução do Dr. Francisco Goulão, explica a oportunidade da reedição da obra. Dos sete capítulos que constituem propriamente Camilo Castelo Branco – Autobiografia, Castelo Branco: Associação dos Amigos do Museu Francisco Tavares Proença jr., 2007, seis reportam-se à vida aventurosa de Camilo até à sua estada na Cadeia da Relação do Porto (1860-61) e o sétimo ao seu “inverno da vida”.
Maria de Lourdes A. Ferraz

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