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Posts Tagged ‘Lucília Ramos’


«Só quando cheguei aos capítulos finais do romance, mais propriamente ao capítulo em que Angélica Florinda morre, é que o título do livro ecoou na minha memória e me fez recuar no tempo, fazendo-me “ouvir” melhor a história da Bruxa de Monte Córdova. Foi nessa altura que me surgiu um quadro familiar da minha mais tenra infância, o dos meus pais e irmãos (principalmente irmãs – quase me atreveria a dizer que os livros de Camilo se destinavam mais a mulheres que a homens), todos juntos, quietamente ouvindo ler, na voz da minha irmã mais velha, que, dramatizando e enfatizando as “falas” das personagens, tanto fazia comover os ouvintes. E eu, muito pequena, só me apercebia das lágrimas, do choro contido que quase explodia em cada uma das mulheres presentes (e éramos sete), em cada momento de emoção maior, que Camilo tão bem sabia emprestar aos seus romances, certamente por ser um conhecedor de corações femininos.
Eu nasci na Vila das Aves, bem perto do monte Córdova em Santo Tirso, locais sobejamente conhecidos por todos nós, que tanto gostávamos de fazer piqueniques nos montes. Meu pai, um velho professor primário – um verdadeiro mestre-escola (como diria o nosso romancista) pelo modo como ele amava os livros e nos incitou à leitura, fazendo com que, diariamente, se lessem em voz alta capítulos de obras, principalmente dos clássicos portugueses. Era um homem ligado ao passado, não muito distante do da vivência das personagens dos contos camilianos, já que em Portugal dos anos cinquenta, do séc. XX, ainda se respirava uma atmosfera de século XIX, como é notório sempre que decorre uma passagem de anos e parece que o tempo deixa tudo inalterável.
Depois de lida esta obra camiliana e debatida em mais uma “noite de insónias”, pergunto-me sobre meu pai, fervoroso na sua fé católica – quase foi padre – como teria ele reagido a este desmascaramento que Camilo faz da devassidão clerical de então?
Bem, se ele nos “obrigava” a lê-lo, a ouvi-lo, é porque estaria francamente de acordo com a visão do romancista sobre o ar que “apestava” os mosteiros da época, tendo sido ele, também, um seminarista pouco convicto, tendo obtido ordem de expulsão, e por guardar cartas amorosas escritas a minha mãe (tanto quanto sei) – um pouco à semelhança do personagem Frei Tomás de Aquino, que não sendo fadado para monge, tudo fez para se livrar de um destino que não lhe pertencia… e por muito amar Angélica.
O tribunal divino lá se encarrega de reduzir a cinzas os algozes, já que “ensinamento aprendido de homens é nada, é alardo vão de força de alma que um revés derruba”, “um punhal poderá ser menos criminoso que um madeiro nas mãos de um frade” – assim falava Frei Jacinto, um autêntico Frei de Deus, sobre aqueles que condenaram frei Tomás de Aquino e não menos… Angélica, a sua atraente e amorosa mulher, que passando por um enorme sentimento de culpa pela morte prematura de seu amado, tropeça na insanidade da mente tornando-se filha espiritual de um frade arrábido, que se entretinha a coordenar em relicários, “esquírolas de ossos de vários santos”, granjeando dinheiro e prosperando no seu negócio mesmo à custa de tornozelos de carneiro, que desfeitos às lasquinhas, eram consignados a diferentes santos e santas. Acabou por levar meia dúzia de cachações por conta, para que não mais pusesse os “seus seráficos pés” no convento de Santa Clara e se afastasse de Angélica.
Não obstante isso, … a quinta essência do Amor Divino subiu à cabeça e coração de Angélica fazendo-a abandonar o convento, levando-a ao eremitério, passando de “santinha” a “bruxa”, ainda que no seu sentir: a Penitente. Foi ela parar a Monte Córdova e lá morreu, não sem antes ter reconhecido e se ter despedido do filho, o barão de Burgães – Burgães, outro lugar bem conhecido, freguesia entre as Aves e Santo Tirso.
Um história triste mas a acabar bem, na expiação de culpas, na redenção de almas, com os conhecidos condimentos com que Camilo sempre temperava os seus cozinhados de emoções e mitigava as suas dores e perdas, embora não se esquecendo de enaltecer e de realçar o trabalho e a honra como resgate da dependência.
Uma história que me levou à memória de meus pais já falecidos e a cenários enfraquecidos pelo tempo.
Assim é Camilo, uno connosco, um familiar ausente mas sempre de regresso ao lar, para que a chama possa ser reacendida e a subida conjunta ao “monte” possa trazer a cura de emoções reprimidas.»
Lucília Ramos

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Para uma leitora, recente, da obra camiliana, que inicia a sua paixão por Camilo nos encontros das Noites de Insónia, confesso que foi com imenso prazer que li a obra proposta para o 1º encontro deste ano, na quarta-feira passada (dia 20), na Casa de Camilo: A Queda dum Anjo.
Este livro já me viera parar às mãos noutras épocas, em que, só pelo título, eu desconfiara do conteúdo bafiento e, por isso, recusara tal leitura. Puro engano meu, nessa época eu desconhecia a delícia, o sabor de um manjar dos deuses, traduzido na mestria da linguagem escrita de Camilo Castelo Branco.
Hoje, posso considerar-me uma apaixonada por Camilo, como a Amélia, a Luísa, a Joaquina, e todas as Marias do Adro, que com ele trocaram os primeiros e virginais amores.
E estes meus amores por Camilo nascem da grande admiração pelo seu entrelaçado de frases, que muito oportunamente surgem pelo conhecimento da alma humana, de quem está habituado a beber da singeleza do ser, que nos leva a coabitar com memórias mais longínquas, de eras passadas, mas intuindo sempre que elas fazem parte do mesmo teatro da vida, sempre actual, e que assim perdurarão.
Por isso, Camilo é capaz de fazer rir e chorar, com a mesma simplicidade de quem não faz esforço para pegar na “pena”, deixando sempre brotar as emoções vividas pelos personagens, tornando-as vivas, presentes, histórias reais que não se encontram em obras de ficção, pois nelas há sempre verosimilhança.
E quando elas tocam a raia do extraordinário, do pitoresco, da caricatura, ainda mais apreciadas se tornam, pois fazem renascer ou acordar em nós sensações adormecidas, fantasias secretas, imaginações do estado de sermos humanos. E será, talvez, esta a grande partilha de Camilo nas poucas obras que já pude ler, a mostra do seu mundo pessoal através da vivência das suas personagens, pois que a cortina é tão ténue que sempre se adivinha a sua imagem ao espelho, rindo-se da sua própria imagem, observando-se tão atentamente quanto a todos os que o rodeiam…
A Queda dum Anjo demonstra bem como todos somos anjos caídos, tão acérrimos defensores de valores elevados e de alta moral, que mal o vento mude e outro tipo de sorte nos bata à porta, aí estamos nós, tipo catavento, a girar para o lado que mais nos agracie. Assim é feito o ser humano, de contradições e incoerências.
A demonstrá-lo temos o demónio parlamentar quando descobre um Anjo, Calisto Elói, rústico-erudito transmontano, perseguidor de leis antigas e de virtudes capitais que, na Câmara de Lisboa faz sucesso com a sua eloquente oratória, contrapondo o palavrório do Doutor Libório, que não falando português de gente, mas idiomas que por muito espremidos azedam a língua, não passam de farfalhices de tolos.
O apelo à “Ordem para a Língua Portuguesa” passa assim a ser urgente, já que tais locuções repolhudas podem ser consideradas parlamentares – assim raspa aos ouvidos da Câmara a linguagem seca de Calisto, quando estes se deleitam com a retórica florida do Deputado do Porto.» (Citações retiradas do livro)
E nós, simples leitores, apaixonados pela envolvência do cenário, já nem damos pela nossa voz (e braço) que se eleva ao ritmo da do nobre Morgado, proclamando, também, em alta voz: Senhor Presidente! … (e depois, surgem os risos ou as gargalhadas perante tais excessos de linguagem, ou caricaturas extremosas de figuras e conceitos, satirizando governos e regimentos).
O carismático Calisto Elói acaba por perder as asas quando entra no “Sistema governamental”, com todos os agraciamentos a que teve direito, porque o “amor” tem custas penas e, há que ganhar o sustento com o seu próprio suor.
E muito mais haveria para explorar sobre esta “Queda dum Anjo” e o espíritolúcido com que Camilo Castelo Branco a projectou num espaço e num tempo que não se distanciam do actual.
Mas foi ela brilhantemente esmiuçada pelo actual coordenador e orientador das nossas Noites de Insónia, o Professor Sérgio, que através da sua clara visão e poder de comunicação, deu ele, também, expressão viva à obra, levando-nos a compará-la com outras da literatura portuguesa ou internacional, mesmo da ficção cinematográfica, nos pontos de convergência, no estilo linguístico, na caracterização de personagens e de atitudes similares, abrindo o leque das perspectivas com que se pode encarar uma obra literária, fazendo-nos apreciar, cada vez mais, as obras camilianas e entusiasmando novos leitores.»
Lucília Ramos

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Nestas noites em que os museus estão de portas abertas ao público, nas comemorações do Dia dos Museus, os funcionários da Casa Camilo Castelo Branco, do Centro de Estudos Camilianos e do Grupo de Caminheiros da GRUCAMO, em Seide, Vila Nova Famalicão, meteram pés a caminho e convidaram o público a percorrer e a viver os trilhos de Camilo, conforme apelidaram de: “Cangosta do Estêvão.”
“Pelos caminhos deste recanto minhoto percorridos pelos passos de Camilo nas suas deslocações a Landim, vamos hoje reviver esses momentos de evasão do nosso romancista.”
Apesar do tempo chuvoso, ultimaram-se os preparativos para a caminhada no átrio do Centro de Estudos Camilianos. Alguns vestidos a preceito, outros bem resguardados de capa e guarda-chuva, partimos nós de autocarro até ao Mosteiro de Landim. Ali começaram as pequenas dramatizações relatando episódios do romancista, das suas Novelas Minhotas e até da Murraça. Foram quatro momentos divertidos, de lanterna em punho alumiando os ‘escritos’ e… os pés das damas de vestido longo, que foram arrastando os seus vestidos rendados nos lamaçais dos caminhos. Houve alturas em que os perigos eram eminentes, não pelos assaltos do Zé do Telhado, mas pelas escuras ruelas, pelos carreiros lamacentos em campos recém-lavrados, pelas silvas encobrindo bermas – onde um passo em falso nos levaria a desaparecer na escura noite ou, no riacho Pele. Valeram-nos os caminheiros da Grucamo, muito experientes nestas cousas de perigos, abrindo braços e protegendo-nos as bordas.
O nosso anfitrião, Camilo Castelo Branco, protagonizado pelo guia do museu, o Reinaldo, cavalheiro de falas de cor, de conhecimento profundo da obra, que leva os ouvintes a pensarem-no possesso pelo pensamento do romancista descabelado – como diria António Joaquim se se apeasse da liteira e assistisse a tal procissão nocturna.
Com Camilo à conversa desde o Mosteiro de Landim, mais o Cego, mais a Brasileira de Prazins e a Maria Moisés, éramos chegados ao Centro de Estudos para descanso da passeata, percorridos 2.400 metros.
E para animar a malta, já que na vida do representante de Camilo há uma boina e uma viola, aí temos o Reinaldo mais a sua cantadeira – a Fátima, que juntamente com o resto do grupo “Pedra D´Água” dão vida a um serão de província.
E como surpresa final, num ambiente descontraído e alegre, retemperaram-se energias com os tradicionais rojões à moda do Minho, pão de milho, caldo verde e um bom vinho; tudo servido em louça de barro com a inscrição de “Casa de Camilo” – para que não restassem dúvidas.
Assim terminou uma noite que ameaçava chuva… mas não choveu e deu vida a um Museu […]
Lucília Ramos

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