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Posts Tagged ‘Maria de Lourdes Ferraz’

É muito comum falar-se do génio de Camilo. Não tenho nada contra desde que se considere que o génio não exclui o trabalho intenso, o esforço humano para dar a uma aptidão natural o brilho que a prática contínua do estudo e da arte exigem. Assim é com Camilo, segundo o meu ponto de vista. Quando o próprio autor nos diz que não tem imaginação mas memória – dito em Anátema, cedo na sua vida de prática de escrita – não atribuo a esse dito o reconhecimento exclusivo de uma fidelidade do acontecer (memória do que vi, do que senti, do que experimentei) mas o proveito das leituras que o estimulavam à escrita e podiam – naturalmente deviam – conjugar-se com outras memórias para que o acontecer se tornasse arte. Julgo mesmo que, ao longo da sua infindável obra, Camilo nos alerta para este fenómeno, o que não deixa de ser interessante para quem gosta, como Camilo, de assegurar a autoridade – ou melhor, autenticidade – da composição ficcional.
Vem tudo isto mais ou menos a propósito de alguns dos romances considerados menores em brilho, mas onde o génio do autor se apresenta muito abertamente com as características que se reconhecem como qualidades da sua arte. E tomo como exemplo um dos romances escritos, em folhetins primeiro, enquanto estava preso: As Três Irmãs, 1ª ed., 1862. No Prefácio à 2ª ed.,1866, transcrito na que referencio, de 1974, Camilo declara a abrir: “A leitura dalguns romances de Emílio Souvestre, e a suavidade meditativa que me eles deixaram no ânimo, induziram-me a escrever um arremedo daquele género que tantas simpatias conquistou entre infelizes”. A prevenção “contra” o que se vai ler está feita e por isso pode continuar em clave de autojustificação complacente até à última nota que leve o leitor à necessária simpatia” eu não me descontentei da minha tentativa”. Se atentarmos nos prefácios, notas preliminares e intróitos semelhantes com que Camilo sempre nos brinda sabemos de antemão como corresponder às orientações de leitura que gosta de apresentar. Neste caso o que ressalta é não tanto a história piedosa com que nos brinda mas a espantosa capacidade de jogar com uma invejável arte narrativa quando nos dois primeiros capítulos apresenta escrupulosamente contida as linhas da trama que se segue e naturalmente, logo no primeiro, a íntima justificação de mais um romance: “[…] toda a dor, bem ou mal exprimida, é sacratíssima sempre”. No 2º cap. apresenta os principais protagonistas e, na brevíssima descrição de cada um (sem evitar os diálogos que ajudam è descrição!), o sucesso que lhes estará reservado no resto do romance. São apenas meia dúzia de folhas mas é quanto basta para se apreciar a poderosa arte de Camilo a que nem sempre damos atenção.
Veja-se como Camilo nos introduz na história para nos apresentar as três irmãs, filhas de Joaquim Luís da Silva “um negociante de honrada fama e créditos de abastado. Quando a invasão dos franceses, abroquelada pelo terror e pelos fantasmas ensaguentados que a precediam, infestou o Porto, o negociante fugiu com sua mulher e três meninas, a mais velha das quais contava dezessete. […] As meninas imediatas em menos idade de quatro e três anos eram Maria e Eulália. Eulália de treze anos, e mais formosa. Maria de catorze, e mais angélica de meiguice. Jerónima era a menos bela, e mais varonil no género de lavor a que se dava em casa, entendendo no tráfico, na labutação, e na contabilidade”. A história de cada uma e dos eleitos do seu coração é só o desenvolvimento verosímil desta apresentação. Vale a pena apreciar como Camilo consegue em cerca de 300 páginas mais um romance que não desmerece a sua obra e a que no prefácio já apusera este seu juízo: “… se atendermos a que primeiro foi publicado em folhetins no Comércio do Porto, jornal lido por milhares de indivíduos, que se dispensam de reler em livro os romances já editados, não há razão para desanimarem os escritores propensos a escreverem neste género chão, e, até certo ponto, religioso, já que não ouso dizer filosófico”.
Maria de Lourdes A. Ferraz

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Para início das comemorações do centenário da fundação do Museu de Castelo Branco, a Sociedade dos Amigos do Museu Francisco Tavares Proença Júnior decidiu reeditar, e lançar no passado dia 4 do mês de Abril, uma Autobiografia de Camilo que o fundador do Museu dera à estampa em 1905. Sabendo que Francisco Tavares Proença Júnior passou à História como arqueólogo e que a 1ª edição da obra referida é muito pouco conhecida, com legítima curiosidade podemos interrogar-nos sobre o como e o porquê deste livro. E o que encontramos de imediato? Um jovem de 22 anos apaixonado pelo “génio” de Camilo que classifica como o “último e mais brilhante artista da língua portuguesa”. Nada de surpreendente no início do sec. XX, em Coimbra, onde estudantes tomavam os seus escritores preferidos como estandartes de querelas juvenis. O estudante em causa estudava, demasiado desinteressadamente, Direito, que frequentava por imposição paterna, lamentando ao mesmo tempo, não poder dedicar-se à Filosofia ou às Letras. Nada de muito extraordinário, também. O que aqui se torna surpreendente é o facto de o jovem estudante, ao justificar a coordenação e anotação de uma autobiografia alheia, demonstrar o pleno conhecimento da sempre infindável obra de Camilo e ao mesmo tempo revelar um trabalho de paciência e dedicação que anunciavam já o promissor arqueólogo, pode bem dizer-se. Com efeito, sem qualquer presunção ou atrevimento, reconhece apenas que “ao percorrermos a sua obra colossal, encontramos, a cada passo, farrapos da sua vida espalhados pelas suas páginas indeléveis.” E continua no mesmo prefácio explicativo da edição: “Reunir todos esses fragmentos e publicá-los, não por uma forma indiferente, mas em harmonia com a sequência lógica das diversas fases da vida de Camilo, eis a minha ideia e o meu fim.” E é o que procura fazer “quasi convencido de que ninguém poderá chegar a dizer a propósito da sua vida tanto como ele próprio disse”. Surpreendente não só pelo motivo invocado – homenagear o escritor em jornada a S. Miguel de Seide – mas surpreendente sobretudo pela demora, minúcia, critério de selecção e notas que a simples homenagem terá exigido. O equilíbrio conseguido na selacção de passos onde descrição, narração e caracterização de protagonistas trazem sempre a marca indelével do humor, do sarcasmo e do trágico Camiliano não pode ter sido o resultado de uma ocupação de meses ou sequer um arroubo de apaixonado, mas foi certamente um trabalho de anos de uma curiosidade e dedicação constantes. Pode bem acrescentar-se que a sobriedade das 70 notas que constituem a segunda parte da obra são, só por si, comoventes, no respeito pela reconstituição de uma vida que se não foi assim vivida, assim foi criada ou desejada, como já foi dito, em espaços diversos pelo Prof. Anibal Pinto de Castro. Isso mesmo aparece reafirmado nas “Palavras Prévias” da Dr.ª Benedicta Duque Vieira que em texto preliminar, juntamente com uma Introdução do Dr. Francisco Goulão, explica a oportunidade da reedição da obra. Dos sete capítulos que constituem propriamente Camilo Castelo Branco – Autobiografia, Castelo Branco: Associação dos Amigos do Museu Francisco Tavares Proença jr., 2007, seis reportam-se à vida aventurosa de Camilo até à sua estada na Cadeia da Relação do Porto (1860-61) e o sétimo ao seu “inverno da vida”.
Maria de Lourdes A. Ferraz

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