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Posts Tagged ‘No Bom Jesus do Monte’

“Um dos meus companheiros de jornada para Vila do Conde era sacerdote idoso, de mui agradável semblante e maviosa tristeza no olhar contemplativo.”
(In Voltareis, ó Cristo, No Bom Jesus do Monte)

A iniciativa tem como objetivos principais fomentar o gosto pela leitura dos textos de Camilo Castelo Branco e proporcionar a partilha de abordagens e de interpretações da prosa do romancista de São Miguel de Seide.

Para cada sessão é sugerida a leitura prévia de um texto de Camilo, o qual é cedido gratuitamente pela Casa de Camilo, desde que solicitado para o endereço eletrónico geral@camilocastelobranco.org.

Formador: João Paulo Braga
Local: Casa de Camilo – Museu (S. Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão)
Público-alvo: maiores de 16 anos (número máximo de 30 participantes por sessão).

 

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O Bom Jesus, em Braga, foi para Camilo um local muito especial, senão o seu preferido na região minhota. Visitou-o pela primeira vez em 1836, a caminho de Vila Real, após a morte de seu pai.
E lá voltaria…
Em 1864 dedicou-lhe um livro – No Bom Jesus do Monte: “Estas árvores são minhas amigas há vinte e sete anos”.

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«Havia muito mar quando se avistou a barra do Porto; e por isso arribamos a Galiza. A nossa Carlota, assim que pôs os quatro pés e os dois estômagos na hospedaria de Vigo engordou outra vez. O pagão não saía da beira dela. No dia seguinte abalou para Tui por uns calinhos que Deus e a civilização já fizeram desaparecer da face do globo. Ao outro dia passamos Valença; e depois a Ponte de Lima, e da lá a Braga em romagem ao Bom Jesus.»
(In No Bom Jesus do Monte)


O cais de Vigo, na Galiza, em finais do século XIX.
(Foto Pacheco Vigo)

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«Conheci-o em Coimbra, estudando preparatórios; no Porto conheci-o esquecido da ciência, e atarefado na faina dos bailes do inverno de 1849. Fomos juntos para Lisboa, e lá o perdi de vista entre as nuvens da brilhante poeira dos salões.»
(In No Bom Jesus do Monte)

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Ao reler Camilo, vejo-o reencontrar-se com as suas memórias No Bom Jesus do Monte, divagando e reflectindo uma última vez por entre os arvoredos “em rebates de saudade”. Este livro, onde relata amizades e amores que testemunhou ou viveu nas suas diversas estadas no sagrado monte entre 1835 e 1863, no dizer do próprio escritor “Fez-se a pedaços, ou a pedaços o coração o foi encadernando nas florestas do Bom Jesus do Monte.” As suas “carvalheiras”, “o cerrado arvoredo da Mãe-d’Água”, as “salas tapetadas de relva e abobadadas de folhagem” são o cenário privilegiado daqueles episódios.
As primeiras lembranças recuam ao tempo em que o autor, criança e órfão há dois meses, vai pela primeira vez ao Santuário. Dessa visita o que “ainda indelevelmente” divisa são exactamente “as grandes árvores, as sombras escuras, os penhascos musgosos”.
Esse amor pelas árvores confessa-o logo na dedicatória ao amigo de Guimarães, em jeito de carta datada de 6 de Março de 1864. Aí, receando estar a alongar-se demasiado nas suas referências ao sucessor do majestoso carvalho que no tempo de Frei Bartolomeu dos Mártires existiu no lugar de Ruivães, justifica assim o seu entusiasmo: “Desculpe, Francisco Martins, estas delongas à conta de uma árvore. Você sabe que amor eu tenho às árvores. […] Este livro que eu lhe dedico tem muito com arvoredos.” A confirmar esse amor, formula mesmo um especial desejo: “A minha ambição é possuir uma árvore que me cubra com um pavilhão de folhas a casa de sete palmos, que hei-de comprar num cemitério […] quando o preço de um livro me der para a sepultura e para a árvore.”
Mas a verdadeira exaltação das árvores e a evocação do refrigério da sua sombra e do bálsamo da sua música, essa é feita no intróito, cujas primeiras palavras são para elas: “Estas árvores são minhas amigas há vinte e sete anos. Vim hoje aqui despedir-me delas: creio que para sempre me despeço. […] Eu já encaneci; e elas verdejam exuberantes de seiva. Faço trinta e oito anos, inclinado à sepultura; e elas têm três séculos que viver, trezentas primaveras para se vestirem de galas novas. Meus netos virão saborear-se em vossas sombras, ó carvalheiras, ó verdes pavilhões que me cobristes nas máximas tristezas e alegrias de minha vida!”
Insistindo no consolo que traz a música das árvores, diz mais adiante: “Dá Deus estas harpas místicas aos arvoredos em benefício dos ânimos conturbados, que se acolhem fugitivos a ermos onde eles cuidam que o Céu os há-de ouvir.” Essa é para ele a música verdadeiramente reparadora e divina, e é em defesa dela que condena a prática em uso na época de fazer acompanhar as cerimónias religiosas de música profana: “Acalentava a música o exasperado Saul. Bons tempos! A música de agora é irritante. Há pouco entrei no templo: o sacerdote consagrava a hóstia, e o órgão entoava a Traviata. Santo Deus! Quem quiser música de adormecer dores, e levantar a alma à sua origem, há-de pedi-la à viração e à folhagem das florestas.”
Mesmo se a melancolia dos bosques inclina à tristeza ela é referida como uma tristeza “generosa” e que desperta “salutares pensamentos”, porque é uma “tristeza que nos vem esmolada do Céu.” É entre o arvoredo que se ouvem melodias genuinamente inspiradoras e apaziguadoras e se aprende a soletrar a verdadeira vida: “São as árvores uns grandes livros abertos, onde todos deletreamos coisas que não constam da Via-Sacra,…”.
Para melhor explicar essa voz das árvores, cita versos das Contemplações de Vítor Hugo, como: Crois-tu que Dieu […] / Aurait fait à jamais sonner la forêt sombre, […] Et qu’il n’aurait rien mis dans l’éternel murmure? […] / Tout parle. Et maintenant, homme, sais-tu pourquoi / Tout parle? Écoute bien. C’est que vents, ondes, flammes, / Arbres, roseaux, rochers, tout vit! / Tout est plein d’âmes. Também aqui, o escritor não perde a oportunidade de um toque mordaz: “Se o zeloso clero das cercanias do Bom Jesus vertesse à letra o tout est plein d’âmes, e o livro, que tal afirma, não escapasse ao Index do sacro colégio, veríamos as florestas mansíssimas da montanha invadidas pelos exorcistas e pelo machado, modos sabidos de afugentar almas das árvores. O grande poeta queria dizer que as árvores têm vozes misteriosas, e os corações audição interior que as escuta, e o entendimento lucidez que as compreende.”
Porque Camilo entendeu essas vozes e colheu paz e bem-estar junto dos arvoredos do Bom Jesus do Monte, as últimas palavras do intróito são de tristeza e saudade: “Quando lá ia, voltava sempre melhor. Nunca me aconteceu outro tanto ao dobrar a última página de livro de moral. Enquanto eu soube ler nas folhinhas das árvores, ia lá: agora que o gear da desgraça e do trigésimo oitavo Inverno […] me vai oxidando a alma, que iria fazer eu lá? Já não sei ler aqueles poemas, aqueles sublimes evangelhos, que o Senhor mandou escrever ao seu máximo apóstolo: a natureza. / Se eu tivesse filhos, havia de ir ali passar com eles três meses cada ano. De madrugada, e aos primeiros assomos da noite, iríamos ao bosque da Mãe-d’Água, e ouviríamos a glória do Senhor narrada pelos Céus. E mais nada. / E os meus filhos seriam bons.”
O significado e o poder que vimos conferido às árvores e à sua música fazem-nos sentir no ar o inefável eco de uma melodia que nunca deixará de se fazer ouvir apesar do ruído do mundo. Se quisermos crer nas afirmações do escritor de que “Chorar nas matas do Bom Jesus é chorar em presença de Deus” e de que é Deus que dá “estas harpas místicas aos arvoredos em benefício dos ânimos conturbados”, teremos como certo que a harmonia da natureza prevalecerá pois, sendo a música das árvores uma dádiva divina, ela estará imune à dissonante actuação dos homens. Saibam eles preservar o templo e as florestas da sagrada montanha de modo a que seja positiva a resposta dos vindouros à questão que Camilo deixa no ar: “De hoje a trezentos anos […] Quem me diz que haverá árvores e serra por lá?!”
Helena Laranjeiro

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