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Posts Tagged ‘O Morgado de Fafe em Lisboa’

No próximo dia 21 de Março (sábado), pelas 17h00, terá lugar no Centro de Estudos Camilianos (S. Miguel de Seide – Famalicão) a apresentação da nova edição de O Morgado de Fafe em Lisboa.
A sessão de lançamento no Centro de Estudos Camilianos contará com a presença e a intervenção do Director da Casa de Camilo – Museu / Centro de Estudos Camilianos, Prof. Doutor Aníbal Pinto de Castro, bem como do organizador desta edição, Cândido Oliveira Martins (Universidade Católica Portuguesa).
Seguir-se-á a encenação de alguns quadros da jocosa peça camiliana, O Morgado de Fafe em Lisboa, pelo grupo de teatro Nova Comédia Bracarense.
Esta nova edição de O Morgado de Fafe em Lisboa é precedida por uma introdução crítica de Cândido Oliveira Martins. Nesse estudo, contextualiza-se a relevância e o significado da escrita teatral de Camilo e da sua vocação dramática. Salienta-se a variedade dos títulos publicados neste domínio e a sua temática dominante, com este enquadramento:
A gigantesca obra ficcional de Camilo Castelo Branco (1825-1890), que a si próprio se qualificava como “operário das letras”, tem injustamente obscurecido outros géneros da escrita deste incansável polígrafo, como é o caso da sua produção dramatúrgica. Autores há que são vítimas quer da sua própria grandeza, quer também da sinuosa e restritiva recepção crítica. [da Introdução crítica]
Ao mesmo tempo, historia-se e justifica-se a popularidade desta comédia de Camilo, através da análise de alguns dos seus processos em matéria de composição teatral e temática, linguística e estilística:
O Morgado de Fafe em Lisboa (1861) é uma admirável farsa camiliana, que se notabilizou, ao longo do tempo, pelo efeito cómico e corrosivo com que investe contra certos ideais, tipos humanos e ambientes característicos do Portugal ultra-romântico de meados do séc. XIX. A graça mordente da sua sátira reside nessa capacidade de anatomia cruel da sociedade burguesa da Regeneração. [da Introdução crítica]
Finalmente, analisa-se o significado estético desta farsa camiliana como invectiva contra certa sociedade e literatura ultra-românticas. Esse mundo enfatuado e piegas, cheio de convenções e etiquetas, dado a uma literatura sentimental e lacrimosa, é objecto de alegre desmistificação paródica e satírica.
Para isso, Camilo opta pela inesquecível figura cómica de um rústico morgado minhoto, de seu nome António dos Amarais Tinoco Albergaria e Valadares. Convidado para um salão lisboeta, ele fala com simplicidade e sem artificiosismos, fazendo assim estalar o falso verniz do “mundo patarata” e das frivolidades janotas da burguesia urbana da capital. A franca ruralidade do morgado choca, de modo frontal e cómico, com a pedanteria e a literatice da atmosfera ultra-romântica do tempo.
O estabelecimento do texto desta edição é feito a partir da 2ª edição de O Morgado de Fafe em Lisboa [1865], saída em vida do escritor, em cotejo com a 1ª edição [1861]. A presente edição é ainda enriquecida por abundantes notas explicativas da linguagem camiliana; e ainda por uma bibliografia crítica.
Inaugurando uma nova colecção de teatro da editora Opera Omnia, o grande objectivo é captar novos públicos para a leitura de autores clássicos como Camilo Castelo Branco. Dentro do espírito do Plano Nacional de Leitura, pretende-se seduzir variadas camadas de leitores, quer através da leitura do texto editado, quer através da representação da peça.
O responsável por esta edição de O Morgado de Fafe em Lisboa já anteriormente organizou outras edições de Camilo: Eusébio Macário / A Corja (Porto, Caixotim, 2003); e Novelas do Minho (Porto, Caixotim, 2006); também publicou uma obra didáctica intitulada Para uma Leitura de “Maria Moisés” de Camilo Castelo Branco (Lisboa, Presença, 1997).
Casa de Camilo

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“Do extraordinário e diversificado universo literário construído por Camilo Castelo Branco (1825-1890) – numa obra genial e, por vezes, desequilibrada, mas seguida com fervor pelo «respeitável público» -, a Biblioteca-Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor [Departamento de Galego-Portugués, Francés e Linguística da Facultade de Filoloxía da Universidade da Coruña] edita, neste volume, as suas duas peças mais justamente representadas e (re)conhecidas: as comédias O Morgado de Fafe em Lisboa e O Morgado de Fafe Amoroso, publicadas, respectivamente, em 1861 e 1865 e estreadas a 18 de Fevereiro de 1860 e a 2 de Fevereiro de 1863, no lisboeta Teatro Nacional “D. Maria II”.
Nestas duas propostas de dramaturgia fársica, a sátira e a comicidade, a partir da estratégia textual e dos seus inegáveis potenciais de translação cénica, apresenta-se inteiramente dirigida ao ataque de um alvo pré-concebido: o da abordagem diminuidora e mordaz da ideologia e a(s) fórmula(s) de um ultra -romantismo fossilizado, que é o objectivo primeiro da peça localizada em Lisboa e também o elemento basilar da obra que a prolonga na Foz. Para além da feliz contestação dos modos e da moda do estereotipado teatro romântico e da feroz destruição da convenção e da impostura literárias, com efeito, uma e outra obra aparecem orientadas para um impiedoso descobrimento da hipocrisia social, sustentado num constante e céptico confronto entre a matéria do riso, que, perante o absurdo do ridículo, dá liberdade, e a derivada matéria da verdade, que, perante a vacuidade da ideologia, produz amargura.
De facto, a reacção por saturação e a consciência da falsidade dos dramas românticos do próprio Camilo vai tomar formas e conteúdos auto-paródicos e iconoclastas nestas extraordinárias comédias, apesar dos traços humanitaristas, “veristas” e verosímeis, das linhas de contestação social e literária ou dos traços autobiográficos com intuitos catárticos que, por vezes, emergem do mar de lágrimas, da maré de conciliação burguesa ou das ondas da sua atormentada vida, na dramaturgia camiliana mais convencional.
Enfim, pode-se afirmar que as duas peças protagonizadas pelo Morgado de Fafe possuem tanto o processo de crescimento, como o potencial de actualização que dão vida intemporal e acompanham os textos “clássicos”, pois, atacando as bases do próprio (e duplo) fingimento dramático como mostram as repetidas alusões distanciadoras ao próprio teatro ante o exagero de atitudes e situações, são muito mais – e já não seria pouco – do que típicas farsas que não visam mais que fazer rir pela típica tromperie bouffonne.
(Da Introdução, por Carlos Paulo Martínez Pereiro)

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