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Posts Tagged ‘Sérgio Freitas’

Nesta apreciável e formosa obra, Casas de Escritores no Minho (Guimarães, editora Opera Omnia, 2007) – em adequado formato de álbum e atraente qualidade gráfica, através da palavra informativa e evocadora das “reportagens” de Secundino Cunha, e da fotografia iluminadora e artística de Sérgio Freitas -, o leitor é convidado a viajar na memória de catorze escritores que viveram e escreveram no Minho.
As residências minhotas aqui evocadas pela palavra e pela imagem são: Casa do Alto, Guimarães (Raul Brandão); Casa do Arco, Monção (João Verde); Casa Nª. Senhora d’Aurora, Ponte de Lima (Conde d’Aurora); Casa de Belinho, Esposende (António Correia de Oliveira); Casa de Casares, Arcos de Valdevez (Tomás de Figueiredo); Casa da Comenda, Vila Verde e Casa da Tapada, Amares (Francisco Sá de Miranda); Casa do Convento de Cabanas, Viana do Castelo (Pedro Homem de Melo); Casa de Cortinhas, Arcos de Valdevez (Teixeira de Queirós/Bento Moreno); Casa de D. Maria Adelaide, Caminha (António Pedro); Casa Grande de Romarigães, Paredes de Coura (Aquilino Ribeiro); Casa do Sargaço, Viana do Castelo (Ruben A.); Casa de Santa Ana de Gondarém, V. N. de Cerveira (Luís de Almeida Braga); e Casa de S. Miguel de Seide, V. N. de Famalicão (Camilo Castelo Branco), recentemente premiada como o melhor museu português (Prémio APOM, 2006).
As casas de escritores são lugares privilegiados de preservação do variado património e espaços ímpares de memória dos que as habitaram e da sua época. Pertencendo a épocas históricas bem diferenciadas, apresentam igualmente uma grande diversidade arquitectónica, desde a casa nobilitada com brasão até à modesta casa de habitação ou de férias.
São património histórico de inegável valor patrimonial, num amplo sentido – espelham a vida de figuras ilustres que as habitaram, homens marcantes do seu tempo, tendo sido às vezes influentes espaços de convívio e de tertúlia. Mas também pela variedade sincrética do seu património (arquitectura, decoração, mobiliário, jardins e espaços envolventes, colecções artísticas – escultura, pintura, fotografia, cerâmica, etc.; e ainda pelos objectos do quotidiano, bibliotecas, arquivos particulares, etc.; elementos do património imaterial: tradições, lendas, referências históricas); quer ainda porque as próprias casas espelham a diversidade de estilos arquitectónicos de sucessivas épocas, bem como os hábitos de vida ou o gosto estético-cultural de um período ou geração.
Também no que respeita ao estatuto e actual função das casas de escritores, podemo-nos deparar com uma considerável variedade: desde a casa-museu às casas-memória; passando pelas que ainda mantêm a funcionalidade de casas de habitação ou pelas que se converteram a funcionalidade de turismo de habitação.
As casas de escritores são, deste modo, lugares habitados pela História, tornando-se insubstituíveis para a construção quer da nossa memória colectiva. Na sua riqueza e diversidade, estas quinze casas de escritores no Minho são lugares privilegiados de evocação de catorze escritores marcantes da região, vários deles com inegável projecção nacional. Não só nos permitem reviver o passado, como potenciar o vivo interesse pelas obras das figuras ilustres que as habitaram e moldaram esses espaços.
Com o charme de outras eras, a aura envolvente e a nostálgica magia que emanam, estas casas são guardiãs de memórias e de pessoas, testemunhos vivos do passado. Têm uma inegável função reveladora, na medida em que nelas se respiram vivências e atmosferas. Nesse sentido, são também espaços que despertam a nossa imaginação e os nossos sentidos, envolvendo-nos emocionalmente.
Em face do afirmado, uma casa nunca é apenas uma casa; é um mundo pessoal e especular, um universo construído ou moldado pelo escritor que o habitou (diz-me onde vives e dir-te-ei quem és…). É um microcosmos que encerra uma vida inteira. Porque afinal, nós somos sempre a casa que habitamos, na medida em que nos projectamos nela e ela se interioriza em nós.
Quando visitamos a casa de um escritor, temos a sensação de sentir um cenário tocado por um certo espírito do lugar (genius loci), de alguma maneira ligado à obra aí pensada e escrita. Neste sentido, podemos dizer que uma casa de escritor é também uma casa de memórias e de vivências, que se plasmam em maior ou menor grau na obra literária criada.
Também as casas de escritores no Minho têm uma função reveladora dos criadores que as habitaram, do seu temperamento e do carácter, das suas ideias e paixões, até dos seus amores, ódios de estimação, ou manias especiais. Neste sentido, a casa é quase sempre o prolongamento de uma personalidade, o espelho do criador que nela viveu.
Como escreveu o autor de Mau Tempo no Canal ou de O Paço do Milhafre, Vitorino Nemésio: “A minha casa é concha. Como os bichos segreguei-a de mim com paciência.” De facto, as casas de escritores constituem uma extensão da sua personalidade produtiva. Como escreveu a escritora francesa Marguerite Duras, na introdução ao livro Maisons d’Écrivains, “Les lieux où l’artiste a vécu et crée ne sont pas moins révélateurs que l’étude de son évolution intérieur ou que ses portraits” (Francesca Premoli-Droulers, Maisons d’Écrivains, Paris, Le Chêne, 1994, introdução de Marguerite Duras). Numa palavra, as casas dos escritores podem sempre iluminar o percurso biográfico destes homens célebres, na medida em que elas guardam as impressões vivas de uma vida humana ímpar.
Não podemos deixar de dar os parabéns aos responsáveis por esta bela publicação – autor, fotógrafo e editor. Mesmo os refractários ao que as casas de escritores representam (quando defendem a primazia da obra publicada em absoluto detrimento do espaço habitado, como se fossem realidades incompatíveis; ou os que recusam um certo fetichismo e morbidez destes lugares), não ficarão indiferentes ao fascínio que estes espaços representam, encontrando nesta obra um sugestivo guia de turismo literário e cultural, que preenche óbvia lacuna neste panorama. Por tudo isto, revela-se extremamente feliz e oportuna a ideia de publicar um livro sobre as Casas de Escritores no Minho.
José Cândido de Oliveira Martins

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