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Posts Tagged ‘Sérgio Guimarães de Sousa’


A iniciativa tem como objetivos principais fomentar o gosto pela leitura dos textos de Camilo Castelo Branco e proporcionar a partilha de abordagens e de interpretações da prosa do romancista de São Miguel de Seide.

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A iniciativa tem como objetivos principais fomentar o gosto pela leitura dos textos de Camilo Castelo Branco e proporcionar a partilha de abordagens e de interpretações da prosa do romancista de São Miguel de Seide.

Para cada sessão é sugerida a leitura prévia de um texto de Camilo, o qual é cedido gratuitamente pela Casa de Camilo, desde que solicitado para o endereço eletrónico geral@camilocastelobarnco.org

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Autor: Sérgio Guimarães de Sousa, nascido em 1970, é doutorado em Literatura Portuguesa. Para além de diversos artigos em revistas da especialidade e de participar em vários colóquios e congressos, publicou vários livros. É também da sua responsabilidade a fixação de texto de algumas edições camilianas: Livro de Consolação (2006), Livro Negro de Padre Dinis (2007).

 

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ENSAIO

Elias J. Torres Feijó
O legado do último Camilo Romancista e a (auto-) cilada Realista
Vila Nova de Famalicão, Casa de Camilo-Centro de Estudos / 2011

Em O Legado do Último Camilo Romancista e a (Auto-)Cilada Realista, Elias J. Torres Feijó leva a efeito uma arrojada e estimulante releitura do lugar de Camilo no campo literário: aquela através da qual procura dilucidar a perda de centralidade do novelista, a partir essencialmente da década de 80, com o advento irreversível do Realismo. Empenhado em aprofundar a conexão entre a emergência do repertório realista e a inevitável perda de capital simbólico de Camilo, gozando de uma proeminência até então indisputada (cabe-lhe, não sofre dúvida, a condição de melhor exemplo possível do Romantismo), Torres Feijó fornece um contributo fundamental para (re)perspetivar, neste contexto de conflito aberto no cerne do campo literário, com remoções e novas identificações estético-ideológicas, do ponto de vista periódico e classificatório, o último Camilo. O d’A Brasileira de Prazins (ABP) e de Vulcões de Lama (VL).

Convirá notar que há nesta questão da perda progressiva de capital simbólico de Camilo, como bem demonstra o estudo em pauta, não descurando a força de imposição de um conjunto de fatores não apenas definíveis como literários, dois modos, pelo menos, de encarar o que ABP e VL significam. O primeiro enfatiza a discrepância destes textos com a matriz romântica de Camilo e, como tal, desemboca na presunção de uma (inevitável) capitulação perante o novo programa literário, representado fundamentalmente por O Crime do Padre Amaro e, em especial, O Primo Basílio, romance que, como se sabe, ataca sem reservas o idealismo romântico — e, por extensão, Camilo — por interposta presença de Luísa, consumidora de literatura romântica. O segundo modo de considerar o assunto não vê forçosamente uma renúncia de Camilo perante o advento do repertório realista e dos axiomas naturalistas, antes rastreia uma estratégia inversa; e que pode formular-se, creio, assim: n’ABP e em VL manifestar-se-iam as condições de possibilidade de uma ficção, apesar de tudo, coerente com a trajetória — vasta e heterogénea — romanesca camiliana. Por outras palavras, pensável fora de uma moldura realista e naturalista, mesmo sendo evidente a responsabilidade desta no último Camilo romancista (não há, pois, como não ver rastos da substância dessa moldura induzida nos romances em apreço).

Comecemos por assinalar que, após recensear as ameaças ao domínio romântico camiliano (entre as quais, afora a publicação, com indiscutível sucesso, dos dois romances referidos de Eça, é preciso reter factos como a Questão Coimbrã, a notoriedade das narrativas já marcadamente realistas de Júlio Dinis, seguramente bem diferentes da arte de efabulação camiliana, a publicação d’As Farpas ou ainda as Conferências do Casino), o autor descreve detalhadamente as reações de Camilo (as públicas e as mais pessoais, transcritas em cartas) perante a iminência de se ver relegado para um lugar periférico do campo. Por exemplo, Camilo reage, nomeadamente na dedicatória a Tomás Ribeiro em «Maria Moisés» ou ainda na Introdução d’A Caveira da Mártir, através de uma estratégia que consiste em desvalorizar a novidade do adversário e reivindicar a «paternidade realista» (p. 15). Neste sentido, como se compreende sem dificuldade, o novelista não só visa subtrair ao Realismo o seu impacto ao tentar descartá-lo do seu fundamento básico (o ser novidade), como ainda atua com vista a manter notória supremacia na liderança do campo literário ao reclamar a autoria primeira dessa suposta novidade. Tudo bem visto, Camilo faz uso de uma tática, como afirma a certa altura, e com inteira justeza, Torres Feijó, «que vai ser constante e arriscada na perceção que rivais e público podem ter como contraditórias: invocar-se ao mesmo tempo como líder de uma corrente, o romantismo, e líder e ainda gerador da contrária (sem assim fazê-la parecer), o realismo, dando assim sensação de que nada de novo havia; e que lhe proporcionaria uma atalaia do que podemos denominar aduaneiro do campo tão ambígua como perfeita» (ibid.).

Para perceber devidamente esta problemática crucial da perda de centralidade de Camilo com o advento do Realismo e, com isso, analisar o debate, entretanto despertado, sobre a missão ideológica da literatura, é forçoso examinar o estatuto — leia-se: o papel central — de Novelas do Minho, como é lógico. É o que faz com exemplar argúcia o autor. Enunciando as diversas abordagens crítico-analíticas suscitadas por esta obra fundamental de Camilo, em leitores como Jacinto do Prado Coelho, Helena Mira Mateus ou Maria Eduarda dos Santos, Torres Feijó, na esteira de Abel Barros Batista, oferece uma boa, porque lúcida, descrição da situação deste texto no arco da produção camiliana, localizando Novelas do Minho numa espécie de entre-dois transfronteiriço (digamos assim): «Na minha apreciação, há uma nova fase camiliana iniciada com as Novelas do Minho (em que estariam presentes procedimentos da nova escola, sem ânimo substantivo de subversão dos mesmos); mas essa fase, do ponto de vista expresso, é qualitativamente menos reveladora em relação ao anterior do que ao posterior (os romances ‘facetos’); porque estes textos vão introduzir mudanças extremamente significativas, deixando as Novelas do Minho numa terra de ninguém» (p. 18).

Mas o estudo da progressiva secundarização de Camilo no campo literário não se faria à margem de uma revisão dos pressupostos dessa secundarização devidamente articulada com outros dois textos imprescindíveis neste âmbito — Eusébio Macário e A Corja —, textos cuja ambiguidade decorre, como observa o autor, reportando-se a Eusébio Macário, por se constituírem em termos de crítica ao novo movimento e, concomitantemente, por implicitamente aceitarem a dominância realista, uma vez que a ontologia de tais textos existe justamente em função da nova vertente literária apregoada por Eça (cf. p. 19).

Seja como for, se crítica há que afirma lapidarmente a irrupção de uma nova fase na arte camiliana, aquela que não desdenha recorrer a expedientes realistas (e naturalistas), a verdade é que esse novo período camiliano não é objeto de um concerto crítico consensual. Ao arrepio de uma boa porção de leitores crentes numa fase realista/ naturalista da ficção camiliana (ou algo realista/naturalista), Torres Feijó, e na senda de estudiosos céticos dessa versão pós-romântica do novelista (entre os quais, Sampaio Bruno e Fidelino de Figueiredo), consentâneo mais uma vez com a leitura (certeira, a meu ver) de Abel Barros Batista, para quem a suposta fase realista de Camilo em boa verdade recupera e amplia aspectos já presentes em obras cómicas anteriores (cf. 20), Torres Feijó advoga que, em geral, nenhum texto de Camilo pode, em rigor, ser lido como realista-naturalista, nem sequer os romances finais (cf.p. 28). Talvez esta seja, penso, a apreciação mais consequente com a versão romanesca que as últimas narrativas de Camilo de facto configuram. Numa palavra, as derradeiras novelas não revelam uma acentuada perda de origem, em resultado de apresentarem situações perfeitamente comensuráveis com esses outros textos mais antigos através dos quais se define, em regra, o esplendor camiliano.

Mais especificamente sobre ABP e VL, o autor, relendo as obras em função «do estado do campo e das diferentes tendências e gostos nele construídos» (p. 52), não se inibe de estabelecer pontos de discórdia com certos tenores da crítica camiliana. Porque expõe uma análise, assaz persuasiva, que contraria nos textos uma escrita que nos daria a lapidar consciência, digamo-lo assim, naturalista. Torres Feijó, com efeito, bem a despeito do suposto valor naturalista incontestado destas duas últimas novelas, vem mostrar que nenhuma delas, tudo bem considerado, sofreu a drástica sobreposição do modelo naturalista. São, pois, novelas menos norteadas por convenções nitidamente adstritas ao Naturalismo e, em bom rigor, mais dadas à ambiguidade.

Desde logo por ABP constituir «uma obra ambígua nos seus objetivos, tentando o autor não aparecer como traidor aos seus princípios românticos e, ao mesmo tempo, não descurando apresentar-se como conhecedor e dominador das novas técnicas e as suas concepções» (p. 53). Mas ainda por não ser suficientemente provado que a loucura, em ABP como em VL, provenha de perturbações mentais de índole naturalista (atinentes à educação, ao meio ou à herança genético-biológica) e não radique antes no, muito camiliano, universo representacional do amor romântico.

Semelhantemente, o comportamento dos protagonistas exibe ambiguidade, visto não nos ser dado saber «se o narrador atribui as condutas dos seus personagens à herança, ao meio e/ou à educação ou a outras circunstâncias; e se o faz em função do cientifismo da altura ou de uma sabedoria tradicionalmente elaborada» (p. 63), ressaltando o facto de, no mundo rural enfatizado por estas novelas (a aldeia pré-Regeneração), sobressaírem valores sociais em declínio ou mesmo já inexistentes na esfera urbana. Ou seja, o campo ainda é o espaço onde vínculos e solidariedades não fraquejam.

Além destes aspectos nada despiciendos, o autor reporta-se ainda à mundividência das personagens («Personagens e Representações de Ideias e Valores»), subcapítulo onde, por exemplo, a propósito da possível perniciosidade do ideário romântico veiculado pela leitura de textos sentimentais, baliza os limites da literatura romântica: esta mais não faz do que entreter e não dispõe de alcance performativo suscetível de incidir numa perturbação do mundo.

Outro tópico analisado, e de não menores consequências, é o da língua («A Língua como Bem e Ferramenta Cultural Distintiva»), sendo talvez neste ponto fulcral de resto que a eventual convicção naturalista em relação a ABP e a VL se torna definitivamente insustentável. Efetivamente, Torres Feijó evidencia o carácter inseparável da narrativa camiliana da vernaculidade e da opulência lexical; que é como quem diz: por muito que possa ter sido o investimento de Camilo nos recursos do novo repertório, o certo é que esse investimento colide com a flagrante inexistência de um devir realista-naturalista da linguagem. Inexistência visível no (qual ‘escrita pulsional’) ostensivo fulgor de uma axiologia estilística que não destoa da excelência fraseológica enfatizada em textos anteriores e, verdade se diga, incrustada em tudo o que o novelista escreveu. Ocorre assim, no último Camilo, uma nítida resistência a um evoluir que começa a deslegitimar o vernáculo estigmatizando-o como paroquial, e em consequência o próprio escritor como passadista, e que valora o cosmopolitismo de usos repertoriais inspirados no mundo francês (cf. p. 89). O que inviabiliza uma adunação entre Camilo (com a irredutível singularidade da sua linguagem) e o novo repertório, como é claro.

Conclua-se sublinhando o mérito indiscutível deste fundamentado e não pouco precioso estudo de Torres Feijó. Trata-se, não se duvide, de um estudo que reforça uma hipótese até aqui razoavelmente discutível: que o legado camiliano materializado por ABP e VL não atesta, a despeito do uso de certos expedientes técnico-narrativos e de certas tonalidades de cariz realista-naturalista, uma descontinuidade do romancista relativamente ao seu percurso romântico. Pelo contrário, é lícito supor que Camilo, como talvez não cuidássemos, por muito íntimo que pudesse ser com a nova ordem estético-literária, se revela estrategicamente, como se de um gesto de coerente com o seu reconhecido capital literário. Se bem que ilustrasse «o impacto do novo movimento, incorporou formas e fórmulas, não a sua conceção nem sensibilidade, que não se compadeciam com o seu pensamento e trajectória e continuou o seu rumo. O seu mundo não desaba tão linearmente como parece e as suas propostas continuam em pé, substantivamente» inclusive o juízo avaliativo de um cenário virtual: se porventura não tivesse existido Realismo, sustenta Torres Feijó, os derradeiros romances camilianos não variariam sensivelmente (p. 91). Talvez. E é neste talvez a declinar convincentemente para o com certeza que reside o mérito de O Legado do Último Camilo Romancista e a (Auto-) Cilada Realista, pela simples razão de que é um estudo dotado dessa capacidade exegética maior que consiste em ser capaz de extrair consequências — e, neste caso, decisivas – do que se lê com acuidade.

Sérgio Guimarães de Sousa

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Sérgio Guimarães de Sousa e José Cândido de Oliveira Martins organizaram o livro de ensaios intitulado Leituras do Desejo em Camilo Castelo Branco, Opera Omnia, 2010 (269 págs.).

Trata-se de um conjunto de estudos críticos, da autoria de investigadores de várias universidades (de Portugal, Espanha e Brasil). Procurando ler Camilo a partir de renovadoras orientações temáticas e críticas, estes ensaios centram-se na importante questão do desejo, que atravessa o universo ficcional camiliano.

Da introdução do livro: “A ficção camiliana, muito assente no conflito entre a paixão e a razão, tem como ponto nevrálgico, por assim dizer, o desejo. As novelas de Camilo oferecem, deste modo, um amplo campo de estudo extremamente fértil para abordar esta questão nas suas múltiplas perspectivas e implicações. Não deixa, por isso, de ser um tanto curioso constatar que a bibliografia passiva de Camilo, mesmo a mais recente, carece de estudos especificamente focados sobre o desejo. Ao reunir, nesta colectânea, textos de um conjunto de investigadores, que aceitaram prontamente o desafio de reler Camilo na óptica do desejo, quisemos colmatar esta lacuna.”

Para maior informação sobre o conteúdo, particulariza-se o índice desta obra:

Introdução (Sérgio Guimarães de Sousa e José Cândido de Oliveira Martins)

Lembrando José Carlos Barcellos (Sérgio Nazar David)

Desejo, concupiscência e estabilidade social: os Vulcões de lama humanos e os ilusórios remédios divinos (Elias J. Torres Feijó)

Retórica contida do desejo em Doze Casamentos Felizes de Camilo Castelo Branco (José Cândido de Oliveira Martins)

Masculinidade e modernidade em Camilo Castelo Branco (José Carlos Barcellos)

Camilo: limites do desejo no mundo do capital (Paulo Motta Oliveira)

– “Amar até doer” – O desejo do amor e a perdição dos desejos  (Rosário Luppi Belo)

– Coisas da terra e do céu – Amor, desejo e humor na ficção camiliana (Serafina Martins)

– Desejo mimético n’O santo da montanha (Sérgio Guimarães de Sousa)

– O século de Silvestre da Silva (Sérgio Nazar David).

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Abel Barros Baptista organizou o volume inaugural da nossa colecção Revisões, dedicada à releitura das grandes obras da literatura portuguesa, volume que incidiu sobre A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós. E acaba de editar, na mesma colecção, o volume que coordenou sobre o Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, que conta com a colaboração de Ana Paiva Morais, Ângela Fernandes, Luís Prista, Roberto Mulinacci, Clara Rowland e Sérgio Guimarães de Sousa. Falámos com o coordenador da obra sobre o livro «revisionista», sobre a «novela» camiliana que o livro revisita, e, naturalmente, sobre Camilo, autor ao qual Abel Barros Baptista dedicou um já vasto conjunto de ensaios, em forma de livros ou de artigos.

P. A primeira e mais paradoxal conclusão que se extrai desta operação de releitura do Amor de Perdição é que o livro foi muito menos lido na Escola do que se pensa: entrou tarde nos programas e nunca de forma muito convincente. A que se deve, em seu entender, esta situação, estranha para uma obra cujo estatuto canónico permanece incontestado?

R. Não sei se será assim tão incontestado. Entre os conhecedores da obra camiliana, não existe unanimidade a respeito de qual seja a mais representativa das novelas de Camilo. Pode até dizer-se que o Amor de Perdição colhe pouco apoio nessa eleição; mas deve dar-se o caso de nisso os próprios admiradores se deixarem influenciar pelos lugares-comuns e pelos preconceitos que cercam o livro. Como quer que seja, o que essa conclusão sobretudo atesta é que o Amor de Perdição não é ou nunca foi visto como a novela convencional que se pretendeu que era durante muito tempo e que, por uma razão ou por outra, os programas escolares a foram considerando inconveniente, inadequada, imprópria para figurar na educação dos jovens estudantes. Não é uma situação estranha, em todo o caso. Não creio que o Estado Novo achasse aceitável a divulgação de uma novela em que o protagonista proclama que a «submissão é uma ignomínia quando o poder paternal é uma afronta»… Às vezes dá-se o caso de os poderes intransigentes serem mais lúcidos leitores do que os supostos leitores lúcidos porque amantes da literatura.

P. Quais lhe parecem ser os maiores contributos deste livro para uma efectiva revisão crítica desta famosa «novela» de Camilo?

R. O maior contributo do livro é precisamente destruir a imagem que tem persistido dele nos últimos tempos. Desde logo a imagem de livro convencional e escolar. Depois, mostrá-lo disponível para certos exercícios que o complicam, que o abrem a várias possibilidades novas e, em particular, que expõem o abismo entre a por vezes extrema simplicidade do que o texto materialmente diz e aquilo que nele se incrustou como verdete interpretativo mais ou menos anónimo. Outro contributo importante: desenhar uma pequena mas eficaz linha de leitura unindo alguns críticos, permitindo pensar numa tradição de leitura que responde a problemas do texto ainda quando não sabe que responde.

P. Camilo parece sobreviver pior do que Eça. Deste, diz-se que o seu retrato do país permanece vivo, e que nele percebemos que o país não mudou. De Camilo diz-se o oposto: o Portugal de que nos fala morreu, e Camilo escreveria sobre «amores de perdição», coisa que hoje nos diria pouco. Pode comentar?

R. Não sei se ainda alguém diz coisas dessas, pelo menos a respeito de Camilo. A respeito de Eça decerto: ainda há poucos anos, no centenário da morte, viu-se que o maior mérito da sua obra lhe é dado pelo pior demérito do país, que é não ter emenda. O que vejo de mais nocivo é o facto recente de os camilianos se terem decidido a gostar de Eça e os queirosianos se terem aventurado a defender Camilo. É uma situação bizarra, e desnecessária, interromper um clássico conflito, que tinha mais razão de ser do que se pensa. A ideia de que cada um é bom escritor à sua maneira, de que há lugar para todos, e coisas análogas, é extremamente nociva, porque dissolve diferenças importantes. Há uma diferença que não permite confundir Camilo com Eça. E há uma diferença que não permite dissolvê-los numa mesma linha de evolução do romance português. Hoje, no entanto, pouco se quer saber disto, e dir-se-ia que os camilianos, se os há, estão mais interessados em provar que Eça admirava Camilo, como se assim desejassem fugir ao anacronismo.

P. Como vê o estado actual dos estudos camilianos?

R. Vejo assim, como disse no fim da pergunta anterior, os camilianos a dissolverem-se numa sopa genérica. Estudos camilianos, hoje, creio que só por liberdade poética. Por motivos que seria longa expor aqui, os estudos camilianos dependeram sempre, na sua constituição e para a sua sobrevivência, da afirmação da singularidade irredutível de Camilo na história literária portuguesa. Infelizmente, preferiram afirmar essa singularidade num plano biográfico, anedótico, psicológico às vezes, e isso tornou-os vulneráveis à passagem inexorável do tempo, com os seus narradores heterodiegéticos, as heroínas reduzidas a funções e a história tornada diegese mesmo quando esfrangalhada até ao limite do grotesco. Talvez fosse melhor, por isso, concluir simplesmente dizendo que os estudos camilianos não têm estado actual.

P. É o segundo livro que coordena nesta colecção, após um volume inicial dedicado a A Cidade e as Serras. Se tivesse de fazer (ou pudesse) um terceiro, qual seria? Agrada-lhe esta tarefa de coordenação de um colectivo entregue a um trabalho revisionista?

R. Gostaria de fazer um livro análogo sobre a heteronímia pessoana, e quem sabe não farei mesmo. Creio que este tipo de trabalho é hoje mais importante do que a produção de leituras individuais, por muito indispensáveis que continuem a ser. Há um sentido particular de trabalho de equipa, possível nos estudos literários, em que a própria individualidade, a desconexão ou o desconcerto da equipa não só concorrem para a mesma finalidade como são mesmo necessários para unir esforços díspares ou até contraditórios. Não há muitos campos do saber em que isto seja possível num mesmo livro. Pode ser uma via de adaptação do trabalho dos estudos literários às actuais condições de estudo e investigação na universidade.

Fonte Blogue Angelus Novus

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