Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘Teatro Nacional D. Maria II’

“Do extraordinário e diversificado universo literário construído por Camilo Castelo Branco (1825-1890) – numa obra genial e, por vezes, desequilibrada, mas seguida com fervor pelo «respeitável público» -, a Biblioteca-Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor [Departamento de Galego-Portugués, Francés e Linguística da Facultade de Filoloxía da Universidade da Coruña] edita, neste volume, as suas duas peças mais justamente representadas e (re)conhecidas: as comédias O Morgado de Fafe em Lisboa e O Morgado de Fafe Amoroso, publicadas, respectivamente, em 1861 e 1865 e estreadas a 18 de Fevereiro de 1860 e a 2 de Fevereiro de 1863, no lisboeta Teatro Nacional “D. Maria II”.
Nestas duas propostas de dramaturgia fársica, a sátira e a comicidade, a partir da estratégia textual e dos seus inegáveis potenciais de translação cénica, apresenta-se inteiramente dirigida ao ataque de um alvo pré-concebido: o da abordagem diminuidora e mordaz da ideologia e a(s) fórmula(s) de um ultra -romantismo fossilizado, que é o objectivo primeiro da peça localizada em Lisboa e também o elemento basilar da obra que a prolonga na Foz. Para além da feliz contestação dos modos e da moda do estereotipado teatro romântico e da feroz destruição da convenção e da impostura literárias, com efeito, uma e outra obra aparecem orientadas para um impiedoso descobrimento da hipocrisia social, sustentado num constante e céptico confronto entre a matéria do riso, que, perante o absurdo do ridículo, dá liberdade, e a derivada matéria da verdade, que, perante a vacuidade da ideologia, produz amargura.
De facto, a reacção por saturação e a consciência da falsidade dos dramas românticos do próprio Camilo vai tomar formas e conteúdos auto-paródicos e iconoclastas nestas extraordinárias comédias, apesar dos traços humanitaristas, “veristas” e verosímeis, das linhas de contestação social e literária ou dos traços autobiográficos com intuitos catárticos que, por vezes, emergem do mar de lágrimas, da maré de conciliação burguesa ou das ondas da sua atormentada vida, na dramaturgia camiliana mais convencional.
Enfim, pode-se afirmar que as duas peças protagonizadas pelo Morgado de Fafe possuem tanto o processo de crescimento, como o potencial de actualização que dão vida intemporal e acompanham os textos “clássicos”, pois, atacando as bases do próprio (e duplo) fingimento dramático como mostram as repetidas alusões distanciadoras ao próprio teatro ante o exagero de atitudes e situações, são muito mais – e já não seria pouco – do que típicas farsas que não visam mais que fazer rir pela típica tromperie bouffonne.
(Da Introdução, por Carlos Paulo Martínez Pereiro)

Read Full Post »