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Posts Tagged ‘Vidas Alternativas’


A obra “Memórias Fotobiográficas de Camilo Castelo Branco”, de José Viale Moutinho (Editorial Caminho, 2009) foi, em minha opinião, um dos acontecimentos editoriais/culturais do ano transacto. Das palpitantes, quase romanescas e rocambolescas memórias fotobiográficas se trata (1825 – 1890) toda a vida de Camilo). Que se lêem com indizível prazer, custa a crer que alguém se tenha deixado confundir e até contaminar com a tragédia da sua vida, como aconteceu com o autor de o Amor de Perdição. O prazer da leitura e a exaltação da imagem devem-se a quem organizou, após porfiada investigação, estas memórias quase inacreditáveis, como se quem as organizasse tivesse procurado um Camilo de ficção, deslumbrante, heróico.
Viale Moutinho era seguramente um dos camilianos melhor posicionados para esta empreitada de que resultou um livro extraordinário, quase um novo romance sobre esse Camilo que já escrevera sobre si próprio, em 1886, em São Miguel de Seide, hoje santuário obrigatório onde os seus cultores o podem reverenciar: “A minha vida foi tão extraordinariamente infeliz que não poderia acabar como a da maioria dos desgraçados. Quando se ler este papel, eu estarei gozando a primeira hora de repouso. Não deixo nada. Deixo um exemplo. Este abismo a que me atirei é o término da vereda viciosa por onde as fatalidades me encaminharam”.
Está aqui reunida uma boa parte do tempo camiliano, a atmosfera que conheceu, desde a Lisboa em que nasceu e de onde partiu órfão até à casa de São Miguel de Seide onde se irá consumar a tragédia do seu suicídio após o Dr. Edmundo Machado, jovem e célebre oftalmologista, lhe ter dado a notícia da perda de visão. A mesma casa onde viveu infortunado com o drama dos seus dois filhos, um louco e o outro estroina. Falamos do mesmo Camilo que não tinha ilusões quanto à simbiose total entre si e a sua obra: “Eu sou um homem que conto a minha vida quando não posso, por ignorância, contar a vida alheia”.
Concretamente, de que livro extraordinário estamos a falar? As cerca de 600 imagens que compõem esta obra respeitam a fotografias, retratos, desenhos e documentos que testemunham a vida de romancista, afinadamente seleccionados. Temos ali imagens que fazem parte dos álbuns clássicos mas também fotografias raras como é o caso daquela que foi tirada a 2 de Junho de 1890, dia seguinte ao suicídio de Camilo, mostrando o grande amigo do escritor Freitas Fortuna junto do seu caixão. Estão ali os documentos e as imagens da Lisboa em que nasceu e de onde partiu para Vilarinho de Samardã. Lemos as opiniões dos outros e as opiniões de Camilo sobre figuras tão díspares como Castilho, Herculano ou Vieira de Castro. É uma antologia de amor sobre um dos vultos mais dúcteis da literatura portuguesa, aquele que nos obriga, tal como Aquilino, a ter um dicionário sempre à mão. A fotobiografia mostra o que há de intrinsecamente empolgante no biografado. Camilo foi extremamente culto, atirou-se febrilmente à escrita, cultivou o jornalismo, a crítica, a polémica, o folhetim, a tradução, a poesia, o teatro, o conto, o romance; órfão aos 10 anos parte para Vila Real, instala-se em Ribeira de Pena, tem um casamento precoce (um verdadeiro desastre) prepara-se para ingressar na universidade, estuda para padre, dedica-se a amores tumultuosos, leva uma vida de arruaceiro, dedica-se à boémia no Porto, cidade com quem manterá toda a vida uma relação de amor e ódio.
[…] O amor por Ana Plácido é o acontecimento que tudo transforma: crise de misticismo, ida para o seminário, o “rapto” da mulher de Pinheiro Alves, a sua prisão na Cadeia da Relação do Porto. Escreve desalmadamente, corresponde-se com os grandes da literatura, frequenta tertúlias. Em 1885 alcança o seu sonho: é-lhe concedido o título de visconde de Correia Botelho. Os desgostos acumulam-se, a cegueira provoca-lhe desespero. Tudo se consuma pelas 15h15 de 1 de Junho de 1890.
Camilo é uma eterna surpresa: entre 1851 e 1890, e durante quase 40 anos, escreveu mais de 260 obras, tudo redigido à pena. Deixou um legado importante de textos inéditos, prefácios, ensaios e traduções, os seus investigadores continuam à procura das fronteiras entre o seu realismo e o seu romantismo, embora se saiba que ele flutuava entre a narrativa romântica, o classicismo castigado, não escondendo a sua atracção pela corrente realista, embora se pense que em Eusébio Macário tenha tentado ridicularizar esta escola.
Infelizmente, está em desuso ler devotamente Camilo. Sorte tem aqueles que descobrem Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, Morgado de Agra de Freires, o protagonista de A Queda dum Anjo; sorte tem aqueles que lêem a Brasileira de Prazins, A Filha do Arcediago ou Memórias do Cárcere. Pode muito bem acontecer que comece aqui o princípio de um grande fascínio pelo nosso maior romântico, na obra, na vida e na morte. E aí estas Memórias Fotobiográficas podem dar um empurrão decisivo.
Beja Santos
In Vidas Alternativas

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